O CAPETA E A GRANDE SECA - II
“Setembro passou com Outubro e Novembro, já tamo em Dezembro, meu Deus o que é de nós? Assim fala o pobre do seco Nordeste, com medo da peste, da fome feroz.” _ Desse jeito começa a música “A Triste Partida” de Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião. E seus versos retratavam com fidelidade o que acontecia no Sertão Nordestino naquele final de 1979. Os açudes secavam com uma rapidez incrível. As águas do São Francisco baixavam diariamente chegando a um dos menores níveis de sua História. As famílias ribeirinhas se mudavam pra mais perto das margens. O sertanejo, olhos no Céu, não acreditava que a chuva não vinha. A água virava lama. A lama virava pedra. Só os répteis, como os calangos e lagartixas, os cactos, como o Mandacaru, por exemplo, e alguns poucos sonhadores ainda resistiam àquela catástrofe. A Igreja Católica procurava, através de suas paróquias e beatas colaboradoras, amenizar o sofrimento daquele povo, distribuindo cestas básicas que continham apenas feijão, farinha e carne-seca. Os governantes decretavam Estado de Calamidade Pública e conseguiam, com isso, alguma verba do Governo Federal. Mas, inexplicavelmente, as verbas não chegavam aos que realmente necessitavam. Os meses passavam trazendo muito calor, poeira, fome e desgraça, e levando vidas, principalmente de inocentes crianças que não suportavam tamanho flagelo. O ano de 1979 terminou e o ano seguinte não mostrava nenhuma melhora. A chuva não vinha. As orações dos Sertanejos pareciam não chegar aos Santos, Anjos e outras Divindades da crença daquele povo sofrido. A Seca se transformou em assunto quase permanente nos noticiários Nacional e Internacional. Repórteres do mundo inteiro vinham fazer a cobertura daquela que se transformou na mais prolongada e abrangente Seca de todos os tempos no Nordeste Brasileiro. A Seca se alastrou da Bahia ao Maranhão, passando por todos os estados do Nordeste, deixando um rastro de miséria e fome. O êxodo rural era o maior já registrado no Brasil. Milhares e milhares de Nordestinos cruzavam o país rumo ao Sul e Sudeste em busca de trabalho, teto e comida. Muitos deixaram para trás suas famílias com a promessa de mandar dinheiro e voltar quando os primeiros pingos de chuva caíssem na Região. Os famosos Paus-de-Arara sacolejavam pelas estradas mal conservadas levando consigo gente, lágrimas e esperança.
Em Salvador, Zé Raimundo e Zé Inácio, já instalados na casa de um parente distante de nossa mãe, procuravam emprego. Mas estava difícil. Sem escolaridade e ainda muito novos, eles não eram aceitos nas lojas e até em obras na Capital Baiana. Depois de uns dias, conseguiram um trabalho numa comunidade de pescadores no bairro do Rio Vermelho. Não demorou muito e eles aprenderam que a pescaria no Mar é bem diferente da que eles estavam acostumados no Rio São Francisco. No final da primeira semana trabalhando com os pescadores, Zé Inácio disse para Zé Raimundo que tava na hora dele ir pra Recife:
_ Ocê, Mundico, já tá trabaiano e dá pá ficá na casa de Tia Nastaça até ocê ajuntá um dinheirinho e alugá um canto procê. Inquanto isso, vai ajudano ela nas despesa da casa. Eu mim vô pru Ricife. Lá eu vô trabaiá e ganhá dinhêro pá mim sustentá e começá a sonhá com um tempo mió.
Zé Raimundo olhou pra ele e com lágrimas nos olhos respondeu:
_ Eu vô cum ocê, Nacinho. Num vô guentá ficá sozinho pur aqui. A Tia Nastaça é gente boa, mas num quero ficá longe docê. Afinar, nóis semo gêmio. E gêmio num si separa.
Os dois se abraçaram e resolveram que iam pra Recife, juntos. E lá eles buscariam ser felizes. Com o dinheiro que receberam naquela semana de trabalho eles conseguiram comprar as passagens pra Recife e foram embora, com a cara e a coragem. Chegando lá, eles procurariam o Primo Almiro e ele os ajudaria a arrumar algum trabalho. Após quinze dias na Cidade do Recife os dois estavam desolados. Não conseguiram trabalho e o Primo Almiro havia morrido há pouco mais de seis meses e sua mulher e seus filhos não os receberam muito bem. Estavam morando de favor e perambulavam pela cidade à procura de algo pra fazer e ganhar uns trocados pro próprio sustento e também pra ajudar na casa de Dona Salviana, viúva de Almiro. Eles moravam na periferia, num bairro bastante violento. Quase toda noite ouviam-se tiros e de manhã quase sempre havia uma história nas páginas policiais dos jornais da cidade. Mundico e Nacinho estavam muito preocupados com a situação. Mas, mesmo assim, Zé Inácio escreveu para minha mãe dizendo que estava tudo correndo bem. Que ele tinha arrumado um emprego de balconista numa loja e o que tava ganhando ia dar pra alugar uma casinha. Não comentou que Mundico fora com ele até o Recife, pois sabia que a mãe ficaria preocupada porque não tinha dado certo em Salvador. Mundico fez amizade com alguns moradores do bairro e às vezes chegava tarde da noite em casa. O irmão ralhava com ele e se dizia preocupado com aquelas amizades. Zé Raimundo explicou pra ele que só dessa forma conseguiria arrumar trabalho e que um amigo já estava vendo um lugar pra ele trabalhar. Isso deixou Zé Inácio um pouco mais aliviado. No dia seguinte os dois saíram juntos pro centro da cidade procurar emprego. Mundico voltou em casa dizendo que tinha esquecido a carteira com os documentos. Ficaram de se encontrar na Praça Treze de Maio, depois das quatro da tarde. Às 16h00, Zé Inácio já estava esperando Mundico na Praça. O dia não foi nada proveitoso. Ele não arrumou uma promessa de emprego sequer. E ainda por cima, percebeu que estava com os documentos de Mundico e, muito provavelmente, ele estava com os seus.
Em Petrolina, Antoniel chegou em casa antes das três da tarde e Cândida achou estranho:
_ Ôxi, hômi? Tá duente, é? Issu é hora de tu tá em casa?
_ Fui dispidido, muié! A obra parô. Inquanto essa seca dus inferno num miorá, num teim mais trabaio. Num sei o qui vô fazê. Acho qui nóis divia di ir pro Ricife. Lá, tu podi trabaiá de impregada em casa de famia e eu mim viro. Ficá aqui sem trabaio nóis vamo é morrê di fome.
Cândida chorava copiosamente. Ela não queria mudar mais uma vez. Outra Terra, outros costumes. Mas, pensando no Chiquinho, que já estava na hora de começar a interagir com outras crianças e ir pra escola, apesar de já saber ler e escrever, ela acabou concordando com o marido. Faltava escolher a próxima parada. Cândida falou que São Paulo, mesmo sendo muito mais longe, teria mais oportunidades pra ela e pro Antoniel, que discordou imediatamente:
_ Qui Sumpálo o quê, muié? Tá todo mundo ino pra lá. Vai tê mais gente qui trabaio daqui a pôco. É mió nóis ir pro Ricife. Lá nóis arruma trabaio. E ainda é pertin do nosso chão. Quando chuvê di novo nóis vorta correno. Si nóis vai pá Sumpálo, até vortá, nóis já morremo tudo de sodade de cá.
E decidiram que iriam pra Recife. Esperariam o melhor momento para partirem. Teriam de vender os móveis e viajariam somente com malas de roupa e pertences pessoais. Enquanto eles tentavam vender os móveis, Antoniel ia se virando como podia, fazendo bicos pra conseguir algum dinheiro pra sustentar a família. Ele bem que tentou pegar a corrente e o relógio de Chiquinho para vender, mas o garoto, sempre implacável, não permitiu. Depois de quase dois meses eles conseguiram vender todos os móveis. O dinheiro não foi muito, mas daria pra se sustentarem uns dias em Recife até as coisas se ajeitarem. Entregaram, finalmente, a casa ao proprietário e pegaram um ônibus rumo à Capital do Estado de Pernambuco, conhecida como a “Veneza Brasileira”.
No caminho para Recife, Antoniel ia sonhando com o que poderia acontecer com eles. Pensava em arrumar um trabalho e uma casa pra morar. Ia procurar, também, uma escola pro Chiquinho. A propósito, Chiquinho estava extremamente quieto durante a viagem. No colo de Cândida, ele olhava a paisagem passando e mostrava pra mãe tudo que achava diferente. O seu semblante era de tristeza e preocupação. Apesar de uma criança de apenas três anos de idade, o garoto parecia estar entendendo o que acontecia.
Antoniel e família chegaram à Rodoviária do Recife. Malas no chão, olhos pro nada, Antoniel estava sem rumo. Não sabia pra onde ir. No relógio de Chiquinho marcava 16h00 em ponto. Os três comeram alguma coisa numa lanchonete e procuraram um policial para se informarem de algo. Nem sabiam do quê. Avistaram um e foram, carregando as malas, até onde ele estava. Chiquinho estava calado, absorto em seus pensamentos. A mão esquerda fechada e os seus “pertences” no bolso da pequena calça. Encostou sua boca no ouvido de Cândida e sussurrou:
_ Mãe, essi pulíça ta cum revórvi. Eu tô cum medo. _ Carece de tê medo não, meu fio. Ele pricisa do revórvi pá trabaiá. _ Respondeu baixinho, Cândida, demonstrando cansaço e desesperança. _ Mais i si ele cumeçá a atirá pá todo lado? – Retrucou Chiquinho. _ Num pensa bestêra, minino. E vê si fica quéto. Num quero ocê correno pula rodoviára. _ ralhou com ele Cândida. Com pouco dinheiro no bolso e sem nenhuma idéia pra onde ir, já que era a primeira vez que ia ao Recife, Antoniel contou o seu caso pro policial e pediu uma orientação. _ Olha moço, _ disse Wagner, o policial, _ Aqui as coisas são meio caras. Mas se o senhor procurar uma pensãozinha perto da periferia pode conseguir um quarto pros três bem barato. Aí o senhor procura emprego e quem sabe não consegue alugar uma casinha, não é? Desejo-lhe sorte. O senhor pega o ônibus que indica o Bairro “Casa Amarela”. Chegando lá o senhor procura a Região do “Alto José do Pinho”. Muita gente humilde mora e trabalha por lá. Acredito que será um bom lugar pro senhor e sua família. Assim que Antoniel agradece ao policial Wagner todas as informações que lhe prestou, ouve-se um grito: _ Socorro! Assalto! Assalto no guichê da Rodoviária! O policial Wagner empunha o revólver e corre em direção ao guichê. Esbarra em Chiquinho que cai, bate a cabeça no chão e desmaia. Cândida rapidamente tenta socorrer o moleque, mas logo se assusta. Ouvem-se tiros no andar de cima da rodoviária. Um homem encapuzado desce correndo as escadas e quando vai passando por Antoniel e família pára. Ele olha pro Chiquinho com os olhos arregalados. Chiquinho acorda e o fita com desprezo. Um tiro vara o Terminal Rodoviário. O projétil viaja e acerta em cheio o peito do bandido que cai, aos poucos, sem tirar os olhos de Chiquinho. Cândida fecha os olhos e se agarra a Antoniel e Chiquinho, todos caídos ao chão. O bandido fica imóvel enquanto um filete de sangue lhe desce o peito esquerdo. O policial Wagner chega ofegante ao local com outro policial. _ Vocês estão bem? _ perguntou para Antoniel. _ Acho qui sim. Só um pôco sustado. O policial que acompanha Wagner aproxima-se do bandido e afirma: _ Está morto, Wagner. Você acertou no coração do infeliz. Deixa-me tirar o capuz e ver se esse maldito tem documentos. _ Retirou o capuz e pensou pesaroso: “Um jovem. Não mais que vinte anos. Entrar numa roubada dessas.” Verificou os bolsos e encontrou a carteira. Alguns trocados, fotos amarrotadas, um calendário de 1979 com Santo Expedito e um RG, meio amassado, mas com foto bem legível. Nesse momento, na Praça Treze de Maio, Zé Inácio sente uma fisgada no peito e um gosto amargo de sangue. Seu corpo fica todo arrepiado. _ Mundico _ Ele grita e sai correndo. Na mesma hora, em Osasco, minha mãe estava lavando a louça quando ouviu alguém chamando-a na sala: “Mãe!” Foi até a sala e não viu ninguém. Ela sente uma vertigem, chama o nome de Inácio e desmaia. Meu pai e o primo Badeco conversavam fora de casa quando ouviram o barulho dela caindo. Correram até a sala e depararam-se com minha mãe desfalecida no chão. Enquanto isso, na Rodoviária de Recife, o policial anuncia: _ Baiano, natural de Ibotirama. José Inácio Cardoso Guedes. Vamos ver se a gente consegue contato com a família. Não tem nenhum endereço por aqui. Apesar de imóvel, o bandido parecia olhar pro Chiquinho que se agarrava à mãe com força. Cândida chorava. Nunca pensara em testemunhar cena tão violenta na sua vida. Antoniel, abraçado aos dois, orava baixinho. No pensamento, a idéia de que, talvez, ir pra Recife não teria sido uma boa idéia.




















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