Contos e Poemas de Henrique Araujo


21/05/2009


NOS CONFINS DO SERTÃO - PARTE 5

O CAPETA E A GRANDE SECA - II

“Setembro passou com Outubro e Novembro, já tamo em Dezembro, meu Deus o que é de nós? Assim fala o pobre do seco Nordeste, com medo da peste, da fome feroz.” _ Desse jeito começa a música “A Triste Partida” de Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião. E seus versos retratavam com fidelidade o que acontecia no Sertão Nordestino naquele final de 1979. Os açudes secavam com uma rapidez incrível. As águas do São Francisco baixavam diariamente chegando a um dos menores níveis de sua História. As famílias ribeirinhas se mudavam pra mais perto das margens. O sertanejo, olhos no Céu, não acreditava que a chuva não vinha. A água virava lama. A lama virava pedra. Só os répteis, como os calangos e lagartixas, os cactos, como o Mandacaru, por exemplo, e alguns poucos sonhadores ainda resistiam àquela catástrofe. A Igreja Católica procurava, através de suas paróquias e beatas colaboradoras, amenizar o sofrimento daquele povo, distribuindo cestas básicas que continham apenas feijão, farinha e carne-seca. Os governantes decretavam Estado de Calamidade Pública e conseguiam, com isso, alguma verba do Governo Federal. Mas, inexplicavelmente, as verbas não chegavam aos que realmente necessitavam. Os meses passavam trazendo muito calor, poeira, fome e desgraça, e levando vidas, principalmente de inocentes crianças que não suportavam tamanho flagelo. O ano de 1979 terminou e o ano seguinte não mostrava nenhuma melhora. A chuva não vinha. As orações dos Sertanejos pareciam não chegar aos Santos, Anjos e outras Divindades da crença daquele povo sofrido. A Seca se transformou em assunto quase permanente nos noticiários Nacional e Internacional. Repórteres do mundo inteiro vinham fazer a cobertura daquela que se transformou na mais prolongada e abrangente Seca de todos os tempos no Nordeste Brasileiro. A Seca se alastrou da Bahia ao Maranhão, passando por todos os estados do Nordeste, deixando um rastro de miséria e fome. O êxodo rural era o maior já registrado no Brasil. Milhares e milhares de Nordestinos cruzavam o país rumo ao Sul e Sudeste em busca de trabalho, teto e comida. Muitos deixaram para trás suas famílias com a promessa de mandar dinheiro e voltar quando os primeiros pingos de chuva caíssem na Região. Os famosos Paus-de-Arara sacolejavam pelas estradas mal conservadas levando consigo gente, lágrimas e esperança.

Em Salvador, Zé Raimundo e Zé Inácio, já instalados na casa de um parente distante de nossa mãe, procuravam emprego. Mas estava difícil. Sem escolaridade e ainda muito novos, eles não eram aceitos nas lojas e até em obras na Capital Baiana. Depois de uns dias, conseguiram um trabalho numa comunidade de pescadores no bairro do Rio Vermelho. Não demorou muito e eles aprenderam que a pescaria no Mar é bem diferente da que eles estavam acostumados no Rio São Francisco. No final da primeira semana trabalhando com os pescadores, Zé Inácio disse para Zé Raimundo que tava na hora dele ir pra Recife:

Ocê, Mundico, já tá trabaiano e dá pá ficá na casa de Tia Nastaça até ocê ajuntá um dinheirinho e alugá um canto procê. Inquanto isso, vai ajudano ela nas despesa da casa. Eu mim vô pru Ricife. Lá eu vô trabaiá e ganhá dinhêro pá mim sustentá e começá a sonhá com um tempo mió.

Zé Raimundo olhou pra ele e com lágrimas nos olhos respondeu:

Eu vô cum ocê, Nacinho. Num vô guentá ficá sozinho pur aqui. A Tia Nastaça é gente boa, mas num quero ficá longe docê. Afinar, nóis semo gêmio. E gêmio num si separa.

Os dois se abraçaram e resolveram que iam pra Recife, juntos. E lá eles buscariam ser felizes. Com o dinheiro que receberam naquela semana de trabalho eles conseguiram comprar as passagens pra Recife e foram embora, com a cara e a coragem. Chegando lá, eles procurariam o Primo Almiro e ele os ajudaria a arrumar algum trabalho. Após quinze dias na Cidade do Recife os dois estavam desolados. Não conseguiram trabalho e o Primo Almiro havia morrido há pouco mais de seis meses e sua mulher e seus filhos não os receberam muito bem. Estavam morando de favor e perambulavam pela cidade à procura de algo pra fazer e ganhar uns trocados pro próprio sustento e também pra ajudar na casa de Dona Salviana, viúva de Almiro. Eles moravam na periferia, num bairro bastante violento. Quase toda noite ouviam-se tiros e de manhã quase sempre havia uma história nas páginas policiais dos jornais da cidade. Mundico e Nacinho estavam muito preocupados com a situação. Mas, mesmo assim, Zé Inácio escreveu para minha mãe dizendo que estava tudo correndo bem. Que ele tinha arrumado um emprego de balconista numa loja e o que tava ganhando ia dar pra alugar uma casinha. Não comentou que Mundico fora com ele até o Recife, pois sabia que a mãe ficaria preocupada porque não tinha dado certo em Salvador. Mundico fez amizade com alguns moradores do bairro e às vezes chegava tarde da noite em casa. O irmão ralhava com ele e se dizia preocupado com aquelas amizades. Zé Raimundo explicou pra ele que só dessa forma conseguiria arrumar trabalho e que um amigo já estava vendo um lugar pra ele trabalhar. Isso deixou Zé Inácio um pouco mais aliviado. No dia seguinte os dois saíram juntos pro centro da cidade procurar emprego. Mundico voltou em casa dizendo que tinha esquecido a carteira com os documentos. Ficaram de se encontrar na Praça Treze de Maio, depois das quatro da tarde. Às 16h00, Zé Inácio já estava esperando Mundico na Praça. O dia não foi nada proveitoso. Ele não arrumou uma promessa de emprego sequer. E ainda por cima, percebeu que estava com os documentos de Mundico e, muito provavelmente, ele estava com os seus.

Em Petrolina, Antoniel chegou em casa antes das três da tarde e Cândida achou estranho:

_ Ôxi, hômi? Tá duente, é? Issu é hora de tu tá em casa?

_ Fui dispidido, muié! A obra parô. Inquanto essa seca dus inferno num miorá, num teim mais trabaio. Num sei o qui vô fazê. Acho qui nóis divia di ir pro Ricife. Lá, tu podi trabaiá de impregada em casa de famia e eu mim viro. Ficá aqui sem trabaio nóis vamo é morrê di fome.

Cândida chorava copiosamente. Ela não queria mudar mais uma vez. Outra Terra, outros costumes. Mas, pensando no Chiquinho, que já estava na hora de começar a interagir com outras crianças e ir pra escola, apesar de já saber ler e escrever, ela acabou concordando com o marido. Faltava escolher a próxima parada. Cândida falou que São Paulo, mesmo sendo muito mais longe, teria mais oportunidades pra ela e pro Antoniel, que discordou imediatamente:

Qui Sumpálo o quê, muié? Tá todo mundo ino pra lá. Vai tê mais gente qui trabaio daqui a pôco. É mió nóis ir pro Ricife. Lá nóis arruma trabaio. E ainda é pertin do nosso chão. Quando chuvê di novo nóis vorta correno. Si nóis vai pá Sumpálo, até vortá, nóis já morremo tudo de sodade de cá.

E decidiram que iriam pra Recife. Esperariam o melhor momento para partirem. Teriam de vender os móveis e viajariam somente com malas de roupa e pertences pessoais. Enquanto eles tentavam vender os móveis, Antoniel ia se virando como podia, fazendo bicos pra conseguir algum dinheiro pra sustentar a família. Ele bem que tentou pegar a corrente e o relógio de Chiquinho para vender, mas o garoto, sempre implacável, não permitiu. Depois de quase dois meses eles conseguiram vender todos os móveis. O dinheiro não foi muito, mas daria pra se sustentarem uns dias em Recife até as coisas se ajeitarem. Entregaram, finalmente, a casa ao proprietário e pegaram um ônibus rumo à Capital do Estado de Pernambuco, conhecida como a “Veneza Brasileira”.

No caminho para Recife, Antoniel ia sonhando com o que poderia acontecer com eles. Pensava em arrumar um trabalho e uma casa pra morar. Ia procurar, também, uma escola pro Chiquinho. A propósito, Chiquinho estava extremamente quieto durante a viagem. No colo de Cândida, ele olhava a paisagem passando e mostrava pra mãe tudo que achava diferente. O seu semblante era de tristeza e preocupação. Apesar de uma criança de apenas três anos de idade, o garoto parecia estar entendendo o que acontecia.

Antoniel e família chegaram à Rodoviária do Recife. Malas no chão, olhos pro nada, Antoniel estava sem rumo. Não sabia pra onde ir. No relógio de Chiquinho marcava 16h00 em ponto. Os três comeram alguma coisa numa lanchonete e procuraram um policial para se informarem de algo. Nem sabiam do quê. Avistaram um e foram, carregando as malas, até onde ele estava. Chiquinho estava calado, absorto em seus pensamentos. A mão esquerda fechada e os seus “pertences” no bolso da pequena calça. Encostou sua boca no ouvido de Cândida e sussurrou:

Mãe, essi pulíça ta cum revórvi. Eu tô cum medo. _ Carece de tê medo não, meu fio. Ele pricisa do revórvi pá trabaiá. _ Respondeu baixinho, Cândida, demonstrando cansaço e desesperança. _ Mais i si ele cumeçá a atirá pá todo lado? – Retrucou Chiquinho. Num pensa bestêra, minino. E vê si fica quéto. Num quero ocê correno pula rodoviára. _ ralhou com ele Cândida. Com pouco dinheiro no bolso e sem nenhuma idéia pra onde ir, já que era a primeira vez que ia ao Recife, Antoniel contou o seu caso pro policial e pediu uma orientação. _ Olha moço, _ disse Wagner, o policial, _ Aqui as coisas são meio caras. Mas se o senhor procurar uma pensãozinha perto da periferia pode conseguir um quarto pros três bem barato. Aí o senhor procura emprego e quem sabe não consegue alugar uma casinha, não é? Desejo-lhe sorte. O senhor pega o ônibus que indica o Bairro “Casa Amarela”. Chegando lá o senhor procura a Região do “Alto José do Pinho”. Muita gente humilde mora e trabalha por lá. Acredito que será um bom lugar pro senhor e sua família. Assim que Antoniel agradece ao policial Wagner todas as informações que lhe prestou, ouve-se um grito: _ Socorro! Assalto! Assalto no guichê da Rodoviária! O policial Wagner empunha o revólver e corre em direção ao guichê. Esbarra em Chiquinho que cai, bate a cabeça no chão e desmaia. Cândida rapidamente tenta socorrer o moleque, mas logo se assusta. Ouvem-se tiros no andar de cima da rodoviária. Um homem encapuzado desce correndo as escadas e quando vai passando por Antoniel e família pára. Ele olha pro Chiquinho com os olhos arregalados. Chiquinho acorda e o fita com desprezo. Um tiro vara o Terminal Rodoviário. O projétil viaja e acerta em cheio o peito do bandido que cai, aos poucos, sem tirar os olhos de Chiquinho. Cândida fecha os olhos e se agarra a Antoniel e Chiquinho, todos caídos ao chão. O bandido fica imóvel enquanto um filete de sangue lhe desce o peito esquerdo. O policial Wagner chega ofegante ao local com outro policial. _ Vocês estão bem? _ perguntou para Antoniel. _ Acho qui sim. Só um pôco sustado. O policial que acompanha Wagner aproxima-se do bandido e afirma: _ Está morto, Wagner. Você acertou no coração do infeliz. Deixa-me tirar o capuz e ver se esse maldito tem documentos. _ Retirou o capuz e pensou pesaroso: “Um jovem. Não mais que vinte anos. Entrar numa roubada dessas.” Verificou os bolsos e encontrou a carteira. Alguns trocados, fotos amarrotadas, um calendário de 1979 com Santo Expedito e um RG, meio amassado, mas com foto bem legível. Nesse momento, na Praça Treze de Maio, Zé Inácio sente uma fisgada no peito e um gosto amargo de sangue. Seu corpo fica todo arrepiado. _ Mundico _ Ele grita e sai correndo. Na mesma hora, em Osasco, minha mãe estava lavando a louça quando ouviu alguém chamando-a na sala: “Mãe!” Foi até a sala e não viu ninguém. Ela sente uma vertigem, chama o nome de Inácio e desmaia. Meu pai e o primo Badeco conversavam fora de casa quando ouviram o barulho dela caindo. Correram até a sala e depararam-se com minha mãe desfalecida no chão. Enquanto isso, na Rodoviária de Recife, o policial anuncia: _ Baiano, natural de Ibotirama. José Inácio Cardoso Guedes. Vamos ver se a gente consegue contato com a família. Não tem nenhum endereço por aqui. Apesar de imóvel, o bandido parecia olhar pro Chiquinho que se agarrava à mãe com força. Cândida chorava. Nunca pensara em testemunhar cena tão violenta na sua vida. Antoniel, abraçado aos dois, orava baixinho. No pensamento, a idéia de que, talvez, ir pra Recife não teria sido uma boa idéia.

Escrito por Cracatua Araujo às 14h51
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08/05/2009


Onde Vou Morar? - Parte 1

Muitas vezes não temos escolha. Moramos na cidade que nascemos ou para onde nossos pais nos levam em algum momento das nossas vidas. Agora, uma coisa é certa: Tem lugar que se a gente pudesse nem passava perto. Não pela localização ou pela Infra-Estrutura, muitas vezes precária, mas por causa da Certidão de Nascimento ou o Comprovante de Residência. Tem lugar no Brasil com nomes extremamente difíceis de aceitar, outros a gente atura, alguns a gente pergunta: Por quê? E outros... ... Jesus! E ninguém é tão criativo quanto o Nordestino. Êta nóis!

Na Bahia temos algumas cidades com nomes bastante curiosos: Amargosa, Baianópolis, Cansanção (cansanção é uma espécie de urtiga do Sertão Nordestino), Cruz das Almas (Deus me livre!), Itaguaçu da Bahia (ué, não fica na Bahia mesmo?), tem umas que dá pra você escolher: Lajedão ou Lajedinho, Presidente Dutra, ou Presidente Tancredo Neves, Várzea da Roça ou Várzea do Poço, Antonio Cardoso ou Antonio Gonçalves, Dom Basílio ou Dom Macedo Costa. Você pode morar em Vitória da Conquista e buscar, lá, a Conquista da Vitória, há quem queira morar em Rodelas e há quem prefira morar em Valente. Valente é fogo. E eu conheço bem lá, afinal foi lá que nasci. Fica entre o Recôncavo e o Sertão baiano. Mas é seco que ave Maria! Chuva lá é artigo de luxo. Aliás, água é artigo de luxo. Água lá, você paga a conta da Embasa (A SABESP de lá) e tem de comprar dos caminhões-pipas porque, com certeza, vai faltar. E, não sei se por isso, o povo resolve nomear os lugarejos, povoados e fazendas com nomes que quase sempre tem a ver com água. Mas se fosse umas coisas com lógica ainda dava pra entender, mas tem uns que piraram na maionese, ou na falta d’água. Lagoa Grande, Lagoa de Dentro, Lagoa da Cisterna (vixi!), Riachão do Jacaré (quê?), Riacho Seco, Lagoa de Cima, Lagoinha, Lagoa do Arvoredo, Tanquinho, além de outros nomes que não é fácil acreditar. Lembro bem da Fazenda Boi nos Ares (Não seria Buenos Aires?), Fazenda do Monte Eu vi Deus (acho que ele quis dizer Montevidéu), Colina dos Cascavéis (detalhe: Nunca foi vista uma cascavel sequer lá) e outros nomes difíceis de engolir. Outra muito boa é a “Pedra do Jegue”. Eu nunca consegui descobrir por que. Mas essa coisa de nome estranho não tem só na Bahia não. O Nordeste inteirinho tem umas cidades que vou te contar. Vamos subir o Mapa:

Sergipe – Começamos por Boquim, depois vem Canhoba, Cumbé, Cristinápolis e Divina Pastora (Quem nasce lá é o quê?). Gracho Cardoso (como?), você pode escolher entre Itabaiana e Itabaianinha, Indiaroba, Lagarto, Moita Bonita (quem usou a moita deve ter se fartado!), Pedra Mole, Poço Redondo, Propriá (Quem será que se apropriou do lugar, hein?), Salgado, Siriri, Telha (aff!) e Tomar do Geru (O que é isso? Tomar onde?).

Alagoas – Colaboração que recebemos do amigo Jairo R. Gomes. Alagoano de nascimento e coração nordestino. Jairo trabalha numa empresa em Cubatão, a Terracom, onde temos alguns amigos e leitores. Eis o que ele nos escreveu:

“Coisas de Alagoas

A região Nordeste do Brasil é, sem dúvidas, a mais fascinante deste país. Possui as mais belas praias, são 09 estados e cada um deles com suas particularidades; São crenças, sotaques e costumes diferentes para cada canto. Assim é também no estado de Alagoas, que já foi Pernambuco, um dia, e que agora relato aqui sua variedade em nomes de cidades, povoados e distritos. Nasci na cidade de Delmiro Gouveia, até aí tudo bem, homenagem ao grande Coronel que revolucionou o mercado têxtil no Brasil, na época da segunda guerra mundial, mas antes da homenagem tinha o nome de ‘Pedra’, puro e simplesmente ‘Pedra’, lembro-me que meu avô nunca acostumou com a mudança e avisava: - Vou para Pedra, Maria! Mas Alagoas tem, ainda, outros grandes nomes de cidades. Você entraria no ‘Minador do Negrão?’ É possível entender um lugar chamado ‘Jacaré dos Homens’? São tão variados os nomes que: Pariconha, Girau do Ponciano, Maribondo, Viçosa e Ibateguara, parecem nomes comuns. Estranho mesmo é morar na Cruz, Valha-me Deus, Caixão ou Morte, nunca entendi o porquê destes nomes, mas o pior é que conheço todos estes lugares. Os povoados próximos à cidade de Delmiro Gouveia, possuem nomes que também merecem destaques: Rabeca, Gangorra, Jardim Cordeiro, Pedrão, Lagoinha e outros. Jairo R. Gomes”

Muitíssimo obrigado ao Jairo e, complementando, o que você acha de uma Branquinha? Pois é. Nessa cidade não deve faltar, não é mesmo? Tem ainda Feliz Deserto (deve chover por lá!), Palestina, Pão de Açúcar, Piranhas (vixi!), Quebrangulho (O que será que queriam dizer com isso?) e, pra terminar nosso roteiro de viagem por Alagoas, Roteiro (Qual será o roteiro pra chegar em Roteiro? Aff!).

Pernambuco – Ê Pernambuco velho de guerra. O que eles inventaram, meu Deus! Pra começar, Afogados da Ingazeira. Bom, dizem que um casal de viajantes tentou atravessar o Rio Pajeú em plena enchente, foram levados pela correnteza e morreram afogados. Para homenageá-los, quiseram por o nome da cidade “Afogados”. Mas já existia (hã?). Como o lugar pertencia ao município de Ingazeira, puseram “Afogados da Ingazeira”. Seria melhor “Afogados no Pajeú”, afinal, Ingazeira, ou melhor, Ingazeiro é uma árvore típica da Região Amazônica, um pouco distante de lá, mas, quem sabe não tinha uns ingazeiros na época da fundação da cidade não é mesmo? Continuando nossa jornada pelo Estado de Pernambuco chegamos a Buenos Aires. Ops! Encontramos ainda Buique (em Valente é nome de cachorro de pobre), Belém de Maria, Canhotinho, Custódia, Dormentes, Escada, Exu (Sai pra lá, Coisa Ruim!), Floresta Rural (hum! É. Podia ser Urbana, por que não?), Lagoa dos Gatos (como?), chance pra escolher entre Orobó e Orocó, Riacho das Almas (Cruz-credo!), Solidão (essa não pode ir sozinho, viu?), Vitória do Santo Antão (Coitado do Santo, Ganhou e ainda ficou como Antão) e, por fim Xexéu.

Paraíba – “Paraíba Masculina, mulher macho sim senhor”. Grande Gonzagão. Na Paraíba, você pode ir morar na Baía da Traição, quer dizer, não. Não pode ir morar lá não. Chega de agouro. Continuando, temos Carrapateira (Ôxe!), Dona Inês (Uia!), Montadas (Ê lá em casa!), Natuba (continuação é?), Rio Tinto e Zabelê.

Rio Grande do Norte – Subindo mais um pouquinho, temos Boa Saúde, Barcelona (Uêpa!), Equador (Êta povo que gosta dos estrangeiros!), Grossos (Eu hein?), Pendências (Lembrei do Banco!), Pau dos Ferros (Valei-me Nossa Senhora), Passa e Fica (como assim? Ou Passa ou Fica.), Touros (Essa deve ficar perto da Baía da Traição, na Paraíba) e, pra terminar, Venha-Ver (Devo ir mesmo?).

Ceará – “No Ceará não tem disso não. Desculpa Luiz Gonzaga, Rei do Baião, mas, tem sim. Quer ver? Começamos por Amontoada (de quê?), hora da escolha: Choró e Chorózinho, Ererê (Ê lelê!), Fortim (Melhor do que Fraquim, não é?), Milhã (Deve ser mulher do milhão!), Pacujá (Que pressa é essa?), Tarrafas e terminamos em Varjota (Será a união de dois outros nomes? Não deve ser.)

Piauí – Outro dia tiraram o Estado do Piauí do mapa do Brasil. Sumiram com o Piauí. Deu até certo trabalho pra achar algumas coisas, mas, vamos lá. Já começa com mania de grandeza. Alto Longa. Depois vem Barro Duro (Deve ter sido muito Imosec!), Fartura do Piauí (de quê?), Jerumenha (O que será isso? Põe a Jerumenha pra dentro rapá!), Oieiras (Quem mandou ficar sem dormir?) e na hora da escolha temos Várzea Grande e Várzea Branca. Você decide.

Maranhão – Na terra dos Sarney vamos encontrar, de cara, Amapá do Maranhão. Está explicado porque o José Sarney é Senador pelo Amapá. Continuemos. Estreito (Será que tem Largo?), Fortuna (Eu quero!), Nova Iorque (Well, this is my beautiful Brazil), aqui você escolhe: Presidente Dutra, Presidente Juscelino, Presidente Vargas e Presidente Sarney. Pra terminar Tumtum (Bate coração!) e Zé Doca (coitado do Zé).

Bem, meus caros amigos. Nomes redundantes, santificados, estrangeiros, curiosos e estranhos, não são um privilégio do Bravo Povo Nordestino. Outros Estados do País nos reservam e revelam grandes curiosidades. Numa próxima edição, faremos uma viagem ao Norte do Brasil. E, plagiando João Ubaldo Ribeiro: Viva o Povo Brasileiro!

 

Henrique Araújo

Escrito por Cracatua Araujo às 18h30
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04/05/2009


Nos Confins do Sertão - Parte 4

O Capeta e a Grande Seca – Parte I

 

         Ibotirama é uma pequena cidade, situada no Vale São Franciscano, no interior da Bahia. Fica a cerca de 650 km de Salvador, Capital do Estado. Na língua Tupi, significa “Futuro Florido”. Mas não se mostrava tão florido assim o seu futuro naquele início da década de 80. A seca assolava o Nordeste de uma maneira jamais vista. Mesmo estando localizada às margens do Rio São Francisco, os seus habitantes pouco conseguiam aproveitar daquele manancial.

         A minha família possuía um pequeno pedaço de terra na Zona Rural da “Cidade Céu”, como Ibotirama é conhecida até hoje. Chamávamos de “Ninho do Caburé” porque quando meu bisavô, Ponciano Guedes da Silva, chegou àquele lugar foi a primeira coisa que avistou. Um ninho de Caburé-de-Cupim em um buraco abandonado de tatu, no meio da roça. Ele construiu a casa próximo ao ninho e, dizem os mais velhos, formou uma grande amizade com aquele pássaro de comportamento estranho. O meu avô, por causa dessa suposta amizade com o pássaro, ganhou o apelido de Ponciano Caburé, e até gostava de ser chamado assim. A fazendinha se chamava “Barrinha”, certa alusão à cidade de Barra, vizinha de Ibotirama. Com o passar dos anos e com a morte do meu avô, a Fazenda Barrinha foi dividida entre os filhos e netos de Ponciano Caburé e o pedaço que ficou com o meu pai nós resolvemos chamar de “Ninho do Caburé”. Meu pai, Raimundo dos Santos Guedes, e minha mãe, Zulmira Cardoso Guedes, construíram ali o seu cantinho. Tiveram sete filhos. Todos homens. Mas só seis se criaram. O mais novo que deveria se chamar Augusto, morreu ainda recém nascido de causa desconhecida. Minha mãe sempre chorava a morte de Augusto e colocava a culpa em meu pai e Tio Tunico, mas desconversava quando a gente queria saber mais detalhes. Os meus irmãos mais velhos diziam que ele nasceu meio homem, meio peixe e meu pai o deu pro Rio São Francisco. Mas minha mãe ralhava com eles toda vez que ouvia essa história maluca. No auge dos meus dez anos de idade eu não conseguia compreender tanto mistério. Eu lembrava do dia que Purêza Parteira chegou pra ajudar minha mãe a dar à luz ao novo irmãozinho. Lembro que eu estava meio chateado, pois iria perder o posto de caçula da família. Mas a minha memória infantil não lembrava do que tinha acontecido. Na verdade, eu acho que nem cheguei a ver o meu irmão.

         Os meus dois irmãos mais velhos, José Raimundo e José Inácio, eram gêmeos e tinham dezoito anos de idade. Depois vinha o João Raimundo, com quinze, Luiz Ponciano Neto, com treze, José Tertuliano, com onze e eu, João Luiz, com dez. Zé Raimundo e Zé Inácio eram tão parecidos que todo mundo confundia um e outro. Até meu pai não sabia diferenciar direito quem era quem. A minha mãe reconhecia pelo jeito mais carinhoso do Zé Inácio com ela. Meus pais só começaram a mandar os meninos pra escola depois de muitos anos e só Netinho gostava de estudar. Muitas vezes ia direto da roça pra escola. Chegava todo sujo, da lida na roça, depois de caminhar três quilômetros e a professora Maria Quitéria ficava chateada com ele obrigando-o a tomar banho lá mesmo, na escola. Mas ele nunca deixava de ir. Vivia dizendo pra todos que ia ser Promotor ou Juiz. “Vocês vão ver!” _ dizia, com orgulho. Os gêmeos pararam os estudos na terceira série do primário. João Raimundo deixou de ir à escola quando cursava a quinta série. Tertinho e eu íamos carregados, quase à força, por Netinho. Nós preferíamos ficar na roça trabalhando ou brincando e, de vez em quando, conseguíamos nos esconder dele e escapávamos das aulas. Nós corríamos pelas estradas que cercavam o “Ninho do Caburé” chutando areia, brincando de jogar futebol com uma bola feita de meia velha e papel ou mesmo caçando passarinhos.

         Os Ibotiramenses sofriam com a estiagem que castigava a Região. O morador da Zona Rural era quem mais reclamava. A minha família começou a pensar na hipótese de deixar a roça e mudar pra São Paulo. A cada dia essa opção ficava mais forte e se tornava, praticamente, a única. Os gêmeos não queriam ir de jeito nenhum pra São Paulo. Zé Raimundo dizia que se tivesse de sair de lá, preferia ir para Salvador. Já o sonho de Zé Inácio era a cidade do Recife. Ele ouviu dizer que lá era melhor que em Salvador. Além disso, um parente nosso, primo de meu pai, já vivia em Recife há mais de vinte anos. Há muito tempo não tínhamos notícias dele e da família, mas, mesmo assim, Zé Inácio tinha certeza que não seria difícil encontra-lo. Meu pai, desolado, já estava a se conformar com a possibilidade da família se dividir. Minha mãe, olhos fundos de tanto chorar, ainda tinha esperança de manter a turma toda unida. Zé Inácio a consolava dizendo que daria notícias sempre. Ficou decidido que iríamos para São Paulo sem os gêmeos. Começamos a nos preparar para a partida. Meu pai fez questão de não vender o nosso cantinho. Tinha como certo que voltaríamos em breve e retomaríamos a nossa vida no Sertão Baiano. Vendemos os animais, o pequeno trator, as ferramentas e um pouco do que sobrou da última colheita. Acompanhei o meu pai até à casa de Tio Tunico que tinha se casado há menos de um ano e ele chamou o casal pra ir com a gente pra São Paulo. Após um pouco de hesitação, os dois resolveram nos acompanhar na nova jornada. Tio Tunico ficou conversando com meu pai e ouvi a conversa, que me deixou bastante preocupado. Passamos depois na casa de Julião do Caminhão, que levaria a gente dois dias depois pra São Paulo. No dia seguinte, véspera da partida pra São Paulo, nos despedimos dos gêmeos. Zé Raimundo iria para Salvador e Zé Inácio para Recife. Peri, nosso Cão Perdigueiro, abanava o rabo sem entender toda aquela movimentação. Deixaríamo-lo com o Julião e, se voltássemos a tempo, o pegaríamos de volta. Minha mãe estava bastante triste ao se despedir dos gêmeos. Principalmente do seu preferido Zé Inácio. Suas lágrimas não paravam de cair. Seu nariz estava vermelho de tanto chorar. Fomos até a rodoviária levar Zé Raimundo e Zé Inácio. A princípio os dois iriam para Salvador e quando o Zé Raimundo se instalasse por lá, Zé Inácio seguiria para Recife. O ônibus partiu e a tristeza da minha mãe contagiava todos nós. A nossa esperança era que as coisas dessem certo onde fôssemos e que Deus permitisse nosso reencontro. Onde quer que fosse. Em Ibotirama, São Paulo, Salvador, Recife ou outro lugar qualquer.

              Da Zona Rural de Ibotirama, na Bahia, seguiam vários Sertanejos, já descrentes nas promessas dos Céus. Entre eles, a nossa família era uma das que arriscaria a sorte em São Paulo. Meu pai, Raimundo, minha mãe, Zulmira, eu, meus três irmãos mais velhos que eu, Antonio (Tio Tunico) e a esposa Maria das Dores, grávida de dois meses. Era o primeiro filho de Tio Tunico. Meu pai, pensativo, olhava as estrelas no Céu e ia me dizendo quais eram as Constelações. O Caminho de Santiago, as Três Marias, O Cruzeiro do Sul, etc. No seu coração apertado, a lembrança dos gêmeos que foram embora um dia antes. O carro rodava há horas e ninguém aguentava mais de dor nas pernas, costas, no corpo todo. Ao chegar a Uberaba, no Triângulo Mineiro, Julião parou o caminhão pra gente descansar. Todos descem e vão até o posto tomar banho e comer alguma coisa. Já passam das dez da noite. Meu pai, com lágrimas nos olhos, tentava disfarçar a tristeza e procurava animar a todos com promessas de bons empregos em São Paulo. Eu fui o único que não desci. Fiquei observando as estrelas e tentando entender o que estava acontecendo. Em pouco mais de um mês, faria onze anos de idade. Comecei a pensar na nossa rocinha em Ibotirama. A gente tinha de tudo lá. Casa, comida, terra pra plantar e colher o nosso sustento e ainda dava pra vender o excesso. Pensei em Zé Raimundo e Zé Inácio e orei por eles. Pedi a Deus e Nossa Senhora que os protegesse de todo o mal e que eles encontrassem seu rumo. Pensei no Augusto. O que realmente teria acontecido com ele? Comecei a pensar na conversa que meu Tio Tunico teve com o meu pai dois dias antes:

_ Isso é castigo de Deus, Rémundo! Ele deve di tá castigano nóis tudo pur causa do Capetinha qui tu mim mandou jogá no Rio.

_ Ara, hômi! Será pussíver! Aquilo num era fio di Deus. Aquilo era fio do Demo, issu sim! Aqui sempre di têve seca. Vai curpá o disinfiliz agora?

_ O qui tu acha qui conticeu cum aquele ladrãozinho fio duma égua, Rémundo? Será qui morreu afogado?

_ E eu lá sei? Si num morreu foi o Diabo qui sarvô! Um minino qui róba a argola da partêra na hora qui tá naceno num há di sê fio de Deus.

Que capetinha era aquele que o Tio Tunico falou? E se ele tivesse certo? Se toda aquela seca foi por causa do capeta? Mas como alguém rouba na hora que nasce? Se foi castigo de Deus, como vamos viver em São Paulo? Dizem que é uma cidade muito grande. Que é fácil se perder lá. Minha Nossa Senhora! Seja por nós lá em São Paulo! – Pensei.

         Continuamos a viagem depois que o Julião dormiu um pouco pra descansar. O Caminhão segue num ritmo lento, como se não quisesse chegar ao seu destino. Algum tempo depois avistamos uma placa na estrada que dizia: “Ribeirão Preto – 40 km”. O dia estava nublado, mas o mormaço queimava nossas costas em cima do pau-de-arara. Meu pai comentou:

_ Tunico, nóis vamo pará in Ribêrão Preto um pôco pá discansá. Tome essi dinhêro e coma um lanche cos minino e tua muié. Eu e Zumira vamo tomá um suco e cumê um sargadinho. Ardispois di Ribêrão é Sumpálo sem mais ninhuma parada. Vê si ocês faiz xixi, essas coisa pá num te qui pará in ôtro lugá.

         Meu pai ligou o radinho de pilha e sintonizou a CBN. O noticiário era claro: “Milhares de pessoas estão chegando à São Paulo vindo dos estados do Nordeste por causa da Seca. Essa, já é a mais forte das últimas décadas. A preocupação do Governador Paulo Maluf é como vai conseguir abrigar toda essa gente sem causar um desastre urbano”. Ouvi aquilo e fiquei preocupado. Será mesmo que São Paulo ainda era a melhor opção? E o Governo? Será mesmo que se preocupava com a gente?

Entramos na lanchonete e pedimos uns lanches e um pouco de água pra beber. O moço olhou pra nós e perguntou:

_ Vocês tão vindo de onde?

_ Ibotirama, na Bahia. _ Respondeu Tio Tunico. _ Tamo ino pá Sumpálo.

_ Olha, não quero desanimar vocês não, mas estão dizendo que São Paulo tá que tá lotado. Tem muita gente vindo do Norte e não vai ter emprego pra todo mundo.

_ Ara! Já cheguemo inté aqui. Num vamo disistí agora. Tenho fé in São José e São Francisco qui nóis há di consigui trabaio e casa pra morá. E butar os minino pá istudá. Queim num teim istudo morre com a inxada nas mão.

_ Vocês é quem sabem! _ Respondeu o moço da lanchonete. _ Desejo que tenham toda a sorte do mundo e que Deus ajude a todos.

         O caminhão volta pra estrada e segue rumo à São Paulo. Cerca de 300 km nos separavam de nosso destino. Meu pai resolveu que iríamos para Osasco na Região Metropolitana de São Paulo. Lá, além de dois primos, ele tinha alguns conhecidos que poderiam dar uma força na busca de emprego e lugar para morar. Foram quase oito horas de uma viagem lenta e cansativa. Finalmente chegamos à Osasco. Em meia hora estávamos na frente da casa de um primo de meu pai que se chamava Joílson Silva Araújo. Badeco, como era conhecido, nos recebeu com um sorriso nos lábios e parecia bastante disposto a nos ajudar. Já passava das onze da noite e fomos dormir. O dia seguinte nos reservava grandes expectativas e, acima de tudo, esperança de dias melhores.

Escrito por Cracatua Araujo às 15h12
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22/04/2009


História de Valente III

O Pão Premiado, Ordem Analfabética e O Espólio

         Quando fui MASG (Menor Auxiliar de Serviços Gerais) no Banco do Brasil entre 1984 e 1987, aconteceram muitas coisas. Umas engraçadas, outras nem tanto. E todos tiravam sarro de todos. Era alguém viajar um pouquinho na maionese que a galera caía matando. E o alvo principal eram os Menores. E os mais velhos de Banco aproveitavam a nossa inexperiência e ingenuidade. Mas, ao mesmo tempo, a gente dava toda a chance do mundo pra eles nos zoarem. Olha só essas:

         Natalício, entrou no Banco junto comigo, também MASG. E ele não era, digamos assim, um aluno de primeira. Quando ele começou no Banco foi trabalhar no Setor Rural. Lá, ele, além dos “serviços gerais”, também foi designado a passar manteiga nos pães que serviriam de lanche pros funcionários. O Natal achou aquilo um desaforo, não se conformava. E o antigo Subgerente ainda o obrigou a “fiscalizar” o lanche do pessoal. Ninguém podia comer mais de um pão. A coisa era contada. Mas o Natalício não estava nem aí. Ele ficava na Copa até a hora do lanche, mas não se importava se alguém comia mais de um. Ele mesmo comia uns três ou quatro. E quando alguém ficava sem comer e ia reclamar com o Adailton (subgerente), ele vinha saber do Natalício, o que aconteceu. E ele sempre com a mesma resposta: Não vi seu Adailton, deve ter sido na hora que fui lavar as mãos ou quando fui ao banheiro. E, todos os dias, ele ia ao banheiro depois que passava manteiga nos pães. É que, como estava muito chateado com a tarefa, ele quis se vingar e criou o “pão premiado”. A que se propunha o “pão premiado”? A castigar, ainda que inocente fosse, o funcionário que comesse tal pão. O que ele fazia? Ave! Ele fazia o diabo com o pão. Tirava todo o miolo, pisava, chutava, às vezes até cuspia no pobre coitado. Aí, no final, ele colocava no forno para esquentar junto com os outros. Assim que alguém começava a comer o “pão que o Natal amassou”, ele corria pro banheiro pra rir à vontade. Garoto sem noção.

         Mas isso não era só o que o moleque fazia. “Nem só de pão vive o homem”. E ele foi designado para colocar os “slips” em ordem alfabética. Bom, vamos explicar o que eram os “slips”. Eram extratos de financiamentos rurais de todos os clientes que tinham aquele tipo de empréstimo no banco. Um dia eu fui procurar um desses “slips” pro Artur mostrar pro cliente a evolução da sua dívida. O nome da figura era Gelson Carneiro da Cunha. Fucei a letra “G”, nada. Ali por perto, na letra “F”, “H”, “I”, “J”, nada. Aí tive de procurar em todo o arquivo. O tempo passando, o Artur reclamando da demora, o cliente dizendo que voltava depois, uma confusão. Até que eu achei. Ufa! Na ordem da letra “P”. Ué? Na letra “P”? Bom, Natalício deve ter se enganado, pensei. No dia seguinte, mais um cliente. Dessa vez era o Ubaldino Amaral de Oliveira. Vixi! Ubaldino! É que o seu Cassimiro, pai dele, pôs, nos muitos filhos, nomes começando com a letra “U”. Urbano, Ubaldo, Urânio, Urânia, Uilson, Uda (isso mesmo! Ou melhor, só isso mesmo), Ubaldino e... ... bem, acho que acabou a inspiração, pois ele colocou nos mais novos Irailton e Cassimiro Filho. Mas chamava-os de U Irailton e U Cassimirinho. Mas, voltando à nossa história, fui procurar o extrato do Sr. Ubaldino. Na letra “U”, nada. Na letra “W”, idem. Voltei pra letra “T”, nem de longe. Acabei encontrando na letra “V”. Caramba! O Natal tá conseguindo errar feio nessa ordem. Levei o extrato e tudo se resolveu. Preocupado com aquilo, fui dar uma olhadinha no arquivo dos slips e quase fiquei maluco. Era Jonas na letra “B”, Izabel na letra “D”, Hernando na letra “T” e outras insanidades. Chamei-o e falei:

_ Natal, acho que você precisa rever esses slips. Tem muitos fora de ordem. Tá difícil de encontrar quando o cliente vem aqui. _ Ele me olhou com certo descaso e respondeu:

_ Olha só. Você é menor que nem eu. Vai querer mandar em mim agora? _ Parecia irritado.

Eu falei pra ele que não. Longe disso. É que era tarefa dele e seria melhor ele arrumar antes que algum chefe percebesse a Zona que estava aquilo. Ele me perguntou:

_ Mas, o que está errado? O que está fora de ordem?

Ao ouvirem nossa conversa, vários funcionários vieram saber o que estava acontecendo. Jorjão, Perdiz, Artur, Coió, Dona Zilda, Seu Alencar, Aécio e Seu Natalino. Expliquei o que tinha percebido nos slips e o Artur falou:

_ É Natal. Eu também fui procurar um outro dia e quase não encontro. Estava totalmente fora de ordem.

_ Eu encontrei Gelson na letra “P”, Ubaldino na “V”, Jonas na “B”, Hernando na “T” e até o da minha mãe, Izabel Araújo dos Santos, tava na letra “D”. Como explicar isso? Se fosse um só, mas tantos? _ Revelei.

_ Henrique, _ respondeu Natalício. _ Depois eu é que sou burro, não é? _ Resmungou e começou a explicar o inexplicável:

_ Gelson na letra “P” de “Prefeito”. Ou ele não é o prefeito de Valente? Ubaldino na letra “V” de “Vereador”. Jonas na letra “B” de “Barbearia”, seu Jonas da barbearia. Hernando na letra “T” de taxista. Hernando, irmão de Fernando, ele não é taxista? E Izabel, tua mãe, na letra “D” de “Dona Lozinha” (apelido de minha mãe). Estou certo ou com a razão? _ Ironizou!

Foi uma gargalhada geral e quase sem fim. Ninguém acreditava que ele ainda defendia a sua maneira de “ordenar” os extratos. Ao final, Seu Natalino, o Gerente Geral, disse para mim:

_ Luiz, a partir de hoje, você fica responsável por colocar esses slips em ordem, pois se nós formos esperar o Natal arrumar, vixi! Estamos ferrados. _ E continuou rindo.

_ Sim, Seu Natalino. Pode deixar comigo! _ Orgulhei-me da minha mais nova missão.

Comecei a por os slips em ordem e vi que a coisa estava complicada. Mas estava dando um jeito. Fui arrumando letra por letra. A, depois B, depois C, depois D, depois E... ...opa! Minha Nossa Senhora, o que é isso? _ Pensei.

_ Coió, Jorjão, Artur, olha só isso! A mulher carrega o filho nove meses na barriga, sente uma dor dos diabos pra parir e bota o nome de “Espólio de José Teófilo dos Santos”. Só matando não é? _ Disse gargalhando!

Todos caíram na gargalhada mais forte do que a “ordem” do Natal. Inclusive, o Natalício, foi quem mais riu. Depois de uns quinze minutos, Jorjão me explicou o que era “Espólio” e “Energúmeno” também, que foi como ele me chamou na hora da explicação.

O pior foi o Natalício chegar pra mim e perguntar:

_ A gente tava rindo do quê?

Deus, tende piedade de nós!

 

 

Escrito por Cracatua Araujo às 17h05
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Um Poema para Roseli!

     Este poema em forma de acróstico foi concebido para que eu pudesse homenagear uma leitura assídua do nosso blog, a Rose! Obrigado Rose. Que Deus continue te abençoando!

 

ROSELI TORRES

 

Referência quando se trata de amizade

Objetiva, sensível e divertida

Saltam aos olhos, suas virtudes

Encanta a todos com sua simplicidade

Luta com vontade pra vencer na Vida

Impera, soberana, apesar das Vicissitudes

 

Tantas são suas qualidades

Onde quer que ela se encontre

Rotinas não a amedrontam

Reage sempre com galhardia e verdade

Eterna guerreira à frente do front

Serena Imperatriz de uma história que todos contam!

 

Um beijo no coração de todos e sejamos felizes. Sempre!

 

Henrique Araújo

Escrito por Cracatua Araujo às 16h52
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20/04/2009


Histórias de Valente II

A Manivela da Xerox

         Comecei a trabalhar no Banco do Brasil aos 15 (quinze) anos de idade. Tomei posse em Valente (BA) no dia 02 de Abril de 1984. Uma semana antes fiz um pequeno estágio para aprender o serviço com o rapaz que estava saindo por causa da idade. Roberval Davi era o seu nome. Ele me ensinou o serviço que eu iria executar e me alertou sobre alguns “trotes” que os funcionários mais velhos aprontavam com os que estavam começando. Falou-me da máquina de escrever em inglês, do envelope redondo pra Carta-Circular, da assinatura anual de revistas que o Banco distribuía gratuitamente aos seus funcionários, entre outros. Toda vez que alguém me pedia para fazer algo estranho ou diferente eu ficava arredio e mesmo assim caí em alguns pequenos trotes. Um dia, nossa máquina Copiadora, marca Xérox, tinha dado uma pane. Um colega chamado José Perdiz e outro Jorge Luiz (Jorjão) estavam lá fuçando pra tentar consertar quando Artur teve uma idéia:

_ Jorjão, porque não manda o Henrique buscar a manivela da xérox. De repente, com ela, dá pra funcionar pelo menos o resto do dia de hoje.

Jorge olhou pro Artur e em seguida falou pra mim:

_ Verdade, Ricão! Procura a manivela que vai ser o jeito, por enquanto. Deve estar com Coió, que foi o último que eu vi usando. Pega lá com ele, por favor.

Apesar de ter achado o pedido estranho, eles me pareceram muito sérios e lá fui eu à procura da tal da manivela da Xérox.

_ Coió, Jorjão ta precisando da manivela da xérox. Você sabe onde está? – Perguntei.

Ele olhou-me com certa desconfiança, fez cara de quem pensava em alguma coisa e me respondeu:

_ Cara, eu usei a semana passada. Mas o Alencar precisou anteontem. Deve estar com ele.

Cruzei o saguão da agência e fui até o Setor Rural onde trabalhava o Supervisor Alencar. Aproximei-me da sua mesa e disse:

_ Seu Alencar, o Jorjão tá precisando da manivela da xérox e o Coió disse que deve estar com o senhor.

Ele me olhou por sobre os óculos de lentes retangulares e pequenas, disfarçou um sorriso, coçou a barba e disse:

_ Luiz, A Dona Zilda pegou ontem comigo. Veja lá com ela lá no guichê de caixa.

Mais uma vez cruzei o saguão de volta ao Setor dos Caixas e procurei por Dona Zilda. Ela era uma mulher de uns 35 anos, mas o pessoal a chamava de Dona Zilda só pra tirá-la do sério. Eu, sem saber desse detalhe, encontrei-a na copa e disparei:

_ Dona Zilda... _ Nesse momento fui interrompido por ela com um olhar de fúria e certo desdém:

_ Dona Zilda é a mãe de quem te mandou, moleque. Meu nome é Zilda e só, tá bom? Diz o que é que você quer e não me enche.

Fiquei gelado na hora. Queria morrer de tanta vergonha. “Ainda bem que ninguém a viu me falando desse jeito”, pensei.

_ O Jorjão tá precisando da manivela da xérox e o Seu Alencar disse que a senhora, digo, que você a pegou ontem. Você sabe onde está ela? _ Perguntei tremendo de medo e vergonha.

Ela parou de tomar o café, limpou a boca com um guardanapo e disse:

_ O Jorjão é um bom filho da mãe. E o “Seu Alencar” deve estar gagá. Devia se aposentar logo e me deixar em paz. Eu não faço idéia de onde possa estar essa coisa. Você já olhou no Almoxarifado? Com a Zona que tá esta agência, deve estar lá, junto com as autenticadoras antigas.

Saí da copa ainda tremendo e fui até à Gerência Geral, onde ficavam as chaves da agência.

_ Bom dia, Seu Natalino. Eu preciso da chave do Almoxarifado pra ver se a manivela da xérox está lá. O Jorjão e o Perdiz estão precisando dela. E eu já rodei a agência toda procurando e ninguém sabe da bendita.

Natalino, o gerente, era um negão de quase 1,90m. Tinha o rosto largo e usava uns óculos apertados que incomodavam só de olhar. Ele ria por tudo. Começou a rir e pegou as chaves do almoxarifado e me entregou, dizendo:

_ Quando vocês terminarem com a palhaçada, traga-me de volta as chaves. Não as deixe por aí, certo Luiz?

Bem, eu não entendi o porquê da palhaçada, mas consenti com a cabeça e saí rapidinho da sala. Abri o almoxarifado e entrei. Aquilo tava uma bagunça dos infernos. Papéis no chão, formulários misturados com canetas e bonés com o símbolo do banco, uma “Zona”, como disse a “Dona Zilda”. No chão tinha umas 30 máquinas autenticadoras e de somar da marca burroughs. Dentre elas uma chamou-me a atenção. Era diferente. Preta, não tinha números, um troço estranho e até então desconhecido pra mim. Uma manivela estava presa a ela na parte superior. Com certa força consegui arrancar a manivela e pensei: “Se não for isso aqui, tô morto”.

Saí do almoxarifado e voltei ao Setor dos caixas onde Jorjão, Perdiz & cia. me aguardavam ansiosamente.

_ É essa aqui, Jorjão? _ Perguntei empunhando a manivela com certo orgulho de missão cumprida.

Jorjão olhou-me com os olhos arregalados e falou:

_ Seu maluco. Você quebrou o mimeógrafo!!!

Henrique Araujo

Escrito por Cracatua Araujo às 15h02
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14/04/2009


Nos Confins do Sertão - Parte 3

O Batismo do Capeta

     O tempo passa rápido na cidade de Barra e pressionados para explicar o surgimento do Chiquinho, Antoniel e a esposa, Cândida, resolvem mudar para a maravilhosa cidade de Petrolina, no estado de Pernambuco. Um grande centro que poderia lhes trazer oportunidades de emprego e certo anonimato para o garoto. Num domingo ensolarado, 11 de agosto de 1979, Antoniel foi à Igreja Nossa Senhora Rainha dos Anjos para marcar a data do Batismo de Chiquinho, o seu primeiro Sacramento. Conseguiu agendar para o 2° domingo de Setembro, pela manhã. Chegou à casa feliz da vida e contou a novidade para Cândida. Dali a dois dias, Chiquinho faria três anos de idade e eles queriam comemorar, ainda que de forma simples e praticamente sozinhos, o aniversário do garoto. Ele era muito precoce. Aos oito meses de idade já corria pelos campos da cidade de Barra. Com 11 meses falava quase tudo. Era um verdadeiro tagarela. Antes de completar dois anos de idade aprendeu a ler e escrever sozinho e deixou tanto os pais quanto os vizinhos perplexos com tamanha inteligência. A famosa mão esquerda permanecia fechada e Antoniel já tinha desistido de tentar abri-la. Toda vez que ele ou Cândida tentava tomar-lhe o relógio ou a corrente, o moleque abria um berreiro ensurdecedor e eles acabavam desistindo pra não chamar muita atenção. Eles estavam morando de aluguel numa casa com apenas três cômodos, num bairro afastado do Centro da Cidade, mas sentiam-se satisfeitos. Antoniel arranjou um emprego de servente de pedreiro numa obra da Prefeitura e Cândida costurava e bordava pra fora. A renda não era muita mas nada de essencial faltava àquela família.

     Chega a terça-feira, 13 de Agosto de 1979, aniversário de três anos do moleque. Às cinco horas da manhã já estava claro e o Sol brilhava no Céu totalmente sem nuvens. O calor estava insuportável. Cândida lembrou que nos anos anteriores, sempre no aniversário de Chiquinho, o tempo ficava desse mesmo jeito. Mas depois do meio-dia caía um temporal que alagava tudo. O Rio São Francisco transbordava e as cidades próximas sofriam muito com a enchente. Antoniel ficou pensativo e olhou pro horizonte. Como que querendo ver se alguma nuvem iria estragar aquele lindo dia. Mas ele tinha de ir trabalhar e só voltaria depois das seis da tarde, horário programado para a festa do garoto. Exatamente ao meio-dia Chiquinho entrou em casa correndo como sempre e falou pra mãe:

_ Tá vino um temporá qui vai alagá é tudo.

_ Num querdito. Mais num tem nem nuvi no Céu minino. _ respondeu Cândida.

_ Teim não? Dá uma oiada!

Quando Cândida olhou pro Céu ficou aterrorizada. O sol brilhava forte, mas uma nuvem gigantesca e negra iria cobri-lo em segundos. Antes que ela piscasse um clarão varou os céus e um forte estrondo assustou a todos. A chuva começou a cair instantaneamente. Parecia que o mundo ia se acabar num dilúvio. Cândida correu, pegou Chiquinho nos braços e entrou em casa. “Minha Nossa Sinhora! Todo ano é a merma coisa.” Pensou. Chiquinho sorria e sua vontade era ir pro meio do temporal. Cândida começou ouvir uns gritos e olhou pela janela. A água avançava rapidamente e alagava todo o bairro. Mas, como que por encanto, sua casa não havia sido atingida pela enchente. Ela deu graças a Deus e ficou lá dentro, esperando o marido voltar do trabalho. A chuva durou uma duas horas e quando passou, o Sol voltou a brilhar mais forte ainda. As famílias vizinhas lutavam pra salvar alguns pertences do aguaceiro. E, o fato da casa de Cândida não ter sido alagada, não passou despercebido. Alguns vizinhos começaram a comentar e o Padre Demétrio ficou intrigado com o acontecido. Passava um pouco das seis quando Antoniel chegou. Assustado com o que viu, ele correu até a sua casa e também não acreditou quando percebeu que a água não tinha chegado até ela.

_ O qui tá conticeno aqui, muié? _ Perguntou, desconfiado.

_ E eu lá sei, hômi? A gente teim curpa de Deus ter Pôpado nóis? O povo num pára de oiá pra cá. Até Pade Dermetu veio fazeno umas pergunta istranha. Eu só sei que a água num chegou inté aqui e tô muito gradicida pur isso.

Antoniel ficou olhando aquela movimentação e preocupado com os olhares dos vizinhos.

_ Pai, ocê comprou presente pá eu? _ Perguntou o ansioso Chiquinho.

Antoniel o olhou com os olhos marejados e disse:

_ Meu fio. Eu bem qui quiria di tê comprado. Mais num tive dinhêro. Ocê mim perdoa?

_ Teim nada não, Pai. Ardispois, eu arrumo um presente pá eu. E ôtro pá tu.

     E chegou o dia do Batismo na Igreja Nossa Senhora Rainha dos Anjos. Cândida arrumou o moleque com uma roupa branquinha que nem algodão. Pôs seu melhor vestido e chamou Antoniel:

_ Tunié, já si arrumô, hômi di Deus?

_ Carma, muié. Tô pronto. Vamo qui o Pade Dermetu deve di tá isperano nóis.

     A caminhada era longa até a Igreja. Além do cansaço e do calor infernal, Cândida ainda tinha de cuidar do Chiquinho pra ele não sujar a roupa nova. Mas ele não parecia nada satisfeito com a missão daquele dia. Emburrado, fazia cara de choro o tempo todo. Algo prenunciava que aquele batizado não seria muito normal. Ao chegarem à Igreja, Chiquinho, desandou a chorar e fez um enorme escândalo. Ele não queria entrar de maneira nenhuma. O Padre Demetrio, vendo a cena, saiu da Igreja e disse ao menino:

_ Calma meu filho. Esta é a Casa de Deus! Não precisas ter medo de nada. O batismo é o primeiro sacramento que irás receber. Depois, tu começarás a estudar o Catecismo e farás a Primeira Comunhão. Tenho certeza que vais gostar muito do nosso convívio.

_ Tá veno, Chiquinho? É o Pade Dermetu qui tá falano. E óia qui ele sabe o qui diz, viu? _ Disse Cândida tentando acalmar o pestinha.

_ Ocês num intendi. _ Respondeu Chiquinho. _ Eu num posso entrá na Ingreja. Eu teinho um pecado e o Pade sabe. Num é Pade?

O Padre Demétrio sentiu um forte calafrio. Olhou nos olhos do moleque, pegou o vidro de água benta e disse:

_ Tu podes até não entrar na Casa de Deus, mas terás de sair desse corpo, Satanás!

Pronunciou essas palavras e borrifou a água benta no Chiquinho. Ele se esquivou e saiu correndo desesperado pelas escadarias. Antoniel olhou pro Padre e, furioso, ameaçou:

_ O sinhô tá doido, Pade? Essi minino é um Santo. Foi São Francisco qui mim deu ele. Nóis vamo imbora agora. E si o sinhô ripití essi negóço de Satanás, eu faço uma quêxa do Sinhô pro Bispo do Ricife. _ Olhou para Cândida que chorava meio sem entender o que estava acontecendo. _ Simbora muié. Vamo percurá ôtra Ingreja qui aceite nosso fio. Só pro mode ele num quis intrá num é mutivo pro Pade dizer essas sandice.

Foram atrás de Chiquinho e o encontraram chorando nos fundos da Igreja. Uma aliança de ouro surgiu no dedo anelar da mão direita do garoto. A mão esquerda estava fechada mais do que nunca. Os pais se entreolharam e Antoniel perguntou:

_ Onde ocê arrumô essa aliança, Chiquinho? Ocê robô minino?

_ Num robei não pai. Eu achei. É minha. Num dô pá ninguém.

_ Tá bom, tá bom. Vamo simbora daqui. Essi Pade Dermetu mim dexô brabo.

Saíram dali direto para casa. Chiquinho pegou a mão do pai e foi saltitando a caminho de casa. Na boca, disfarçava um sorriso irônico.

     Na Igreja, o Padre Demétrio procurava desesperadamente o seu Terço de Ouro que havia sumido.

 

 

Henrique Araújo

Escrito por Cracatua Araujo às 20h21
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13/04/2009


Histórias de Valente I

Que Nome Darei Pro Meu Filho?

         Essa é uma das maiores preocupações dos pais quando o pimpolho está chegando. Acredito que só fica atrás do desejo de vê-lo saudável e perfeito. E como é difícil escolher, não é verdade? O pai quer um, a mãe quer outro, o avô quer homenagem, a avó quer nome de Santo e por aí vai. Sem falar nos parentes mais distantes e vizinhos que querem dar pitaco. E surge cada coisa, cada invencionice! Com o tempo a gente acaba se acostumando. Mas é duro. Quando a criança recebe um nome, digamos, não muito normal ou comum, sofre muito. Sofre com os amiguinhos, coleguinhas de escola, os próprios professores que não conseguem pronunciar corretamente na chamada oral, eles próprios só conseguem escreve-lo corretamente quando estão no Ensino Médio. E sempre tem aquelas situações que a criança não sabe por que puseram aquele nome. Há casos de depressão, de tentativa de patricídio e matricídio. E a coisa é muito mais complicada quando observamos os nomes no Nordeste. No Ceará o que tem de Raimundo Nonato, Cícero, Francisco, é uma grandeza. No Maranhão é quase obrigatório o filho se chamar José do Ribamar. Na Bahia, o bonito é o nome terminar com “son”. E tem que ter “Y”, “W”, “LL”, uma coisa impressionante. O que vemos de Gleybson, Joelson, Wanderllandson, Kelvison, Jackson, Ysabelly, Karollynne, entre outros. E, pelo Brasil afora,  ainda tem aqueles que homenageiam os avós da criança com nomes totalmente fora de moda. É Hermínia, Fidelzina, Aarão, Cornélio, Clériston, Gertrudes, cruzes! Sem falar nas homenagens às celebridades: Maicón Jéckson, Elvys Preslley, Arnoldo chuazenegui, Silvestre Istalone. Outras “homenagens” ou simples falta (ou excesso) de criatividade, também causam grandes constrangimentos. Há casos de Januário que nasceu em março, Abrilino que nasceu em Agosto, Setembrino que nasceu em Dezembro e outras coisas inacreditáveis. É muito comum também quando os pais resolvem unir nomes e formar um só. Deus do Céu! Adalcente (Adalgisa e Vicente), Marcolando ou Maryola (Marcos e Yolanda), Mariel (Maria e Ariel) e outros que são verdadeiros ultrajes. Um caso que ficou bem conhecido no Brasil foi o pai que resolveu homenagear alguns jogadores da Seleção Tri campeã em 1970. Ele pensou: Tostão, Pelé, Rivelino, Carlos Alberto, Gerson e Jairzinho. Aí saiu a Obra-Prima: Tospericagerja! É o garoto se chama Tospericagerja! Deus tenha piedade. Mas depois a vida segue e o nome já não incomoda tanto. E muitas vezes se torna marca forte do detentor. Quem não se lembra de Austregésilo de Athayde, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras? Tancredo Neves, Presidente da República eleito em 1985. Sua esposa Risoleta. Juscelino Kubitschek. E aquele pai que resolveu “contrariar” o seu nome, Severiano, e pôs no filho, “Onaireves”. Nossa!

       Antigamente, principalmente no Nordeste, os pais se guiavam muito pelo famoso “Almanaque de Pernambuco”. Era um livreto com nomes para cada dia do ano. Acontece que algumas datas eram informadas apenas o nome do Santo do dia ou o que se comemora naquela data. O pessoal menos “avisado” cometia insanidades. Aí surgiam nomes desastrosos como Fraternidade da Silva (1° de Janeiro – Dia da Fraternidade Universal), Carnavalino dos Santos (terça-feira de carnaval), Paixão (Nascido na sexta-feira santa), Pascoalino (Nascido no Domingo de Páscoa), Natal e outros mais.

      Bom, esse preâmbulo todo foi pra contar uma história verídica. Aconteceu na minha família. E foi um desastre após o outro. Vou contar pra vocês:

 

Minha mãe, Izabel, sempre gostou do nome Luiz. Mas não sozinho. Tinha de ser composto. Aí surgiram Luiz Cláudio (o mais velho), Jefferson Luiz (o segundo) e Luiz Henrique (este escritor maluco). Só que o do meio ficou sem o Luiz. Minha mãe pôs Josenias. Isso mesmo! Josenias. Tudo junto. E não era composto. Ele vivia zoando os outros. “Cambada de Luiz”, “Sou o único que tem nome diferente”, “Luiz isso”, “Luiz aquilo”. Até que minha mãe resolveu chamar o Mercadinho da Família de “Mercadinho São Luiz”. Aí danou-se. O Josenias gritou: “Ei! E eu?”.

Depois foi o meu pai. Ele tem um nome normal: Adalberto. Quando nasceu o sexto filho, uma menina, em 1972, minha mãe, Izabel, pensou em colocar Simone. Aí, um dia antes, uma conhecida na cidade, teve uma menina e pôs Simone. Minha mãe pensou e resolveu pôr Caetana. Ave! Mas o meu pai ao chegar ao Cartório para registrá-la, percebeu que algumas pessoas estavam folheando uma revista Manchete. Veja que era uma verdadeira febre na época. E viu uma foto de uma vedete famosa que ele achou lindíssima. Uma tal de Mara Rúbia. Pronto. A minha irmã foi registrada como “Mara Rúbia”. A minha mãe só ficou sabendo quando ele chegou em casa com o troféu (Certidão de Nascimento) nas mãos. Eu ainda não me convenci do que seria pior: Mara Rúbia ou Caetana.

     E a coisa é genética. Os filhos dele foram tendo idéias e decisões bastante criativas com relação aos nomes dos pimpolhos que foram nascendo.

     O primeiro, Luiz Cláudio, meu irmão mais velho, ficou extasiado com a notícia que sua mulher “Janailda” (seria Januário com Ilda?), teria um menino. Ele logo disse: Vou homenagear um piloto de Fórmula um. Vixi! Eu pensei: Bom, ele vai colocar Nelson (Nelson Piquet), Alan (Alain Prost), Emerson (Emerson Fittipaldi), Ayrton (Ayrton Senna). Não. Ele resolveu lembrar de um nome austríaco: Kéke Rosberg. Por sorte do moleque, ele decidiu por Rosberg. Já pensou, Kéke? Mas, lá em Valente, existe uma mania de nome composto. Luiz Cláudio, Luiz Henrique, Jefferson Luiz, Antonio Carlos, Marcos Roberto, José Augusto, Marcelo Augusto, entre outros. Ele disse com emoção e com a voz embargada: Vai se chamar Rosberg Victor Wanderley. Santa Maria dos Inocentes! E ainda os sobrenomes. Como ia ficar isso? Tentamos interna-lo por insanidade, incapacidade temporária, mas não deu certo. O máximo que conseguimos foi retirar o Wanderley do nome da criança. Aí ficou lindo: Rosberg Victor. Eitcha!

     O segundo, Jefferson Luiz, teve uma idéia mais fantástica ainda. Quando sua mulher disse que ia ter um menino ele não pestanejou: David Starsky! Aff! Quem? Perguntei assustado. Ele com uma certa ironia: “você nunca viu Bang Bang à Italiana?” Bem eu vi alguns filmes da Série, mas lembro bem do Giulianno Gemma. Sugeri: “Se você está querendo homenagear um ator estrangeiro de filmes de faroeste, acho que esse não é o mais indicado”. Ele me respondeu: “Sai pra lá Mané, você não sabe de nada.” Minha mãe quase chora: “Meu fio, ninguém vai saber falar esse nome. Nem o menino vai saber escrever. Porque você não bota David Henrique? Henrique é um nome abençoado” Puxa-saco! Ele saiu bufando e resmungando e foi registrar o filho. Resultado: David Henrique... ... Starsky! O pior é que nem ele, nem o pessoal do cartório sabiam escrever o nome. Aí ficou uma aberração. O David pra você pronunciar tem de vomitar: Deyvd. Isso mesmo. Com “v” mudo, ou não. O Henrique ficou normal. O Starsky ficou Stack. Eitcha! O Menino já tentou matar o pai três vezes. Mas não deu certo. Por sorte. Ou não!

     E não pára por aí. O mais velho, Luiz Cláudio, resolveu se superar. Nasce seu segundo filho. Exatamente 11 meses depois do primeiro. Agora, uma menina. Bem, ele deve pôr Márcia, Sandra, Fernanda, Ana, normal. Não! Ele resolve juntar o nome da mãe (Janailda) e o dele (Cláudio). E a menina passa a se chamar Janacláudia. Isso. Tudo junto! Mas como ele adora nome composto, vem o golpe de misericórdia: Janacláudia Rejane. Socorro! De onde veio esse “Rejane”? A menina vai matar a família toda. Quando ela completou oito anos de idade eu me mudei da cidade. Só por precaução.

     A criatividade do ser humano é realmente infindável. Eis que, aos 17 anos, Janacláudia engravidou. Quando fiquei sabendo, liguei para minha irmã, Mara, e disse: “Não deixa esse povo estragar o nome do bebê, pelo amor de Deus!”. Um tempo depois ela me liga e diz: “Já escolheram o nome da filha de Janacláudia. Vai ser Lavyny”. Apesar dos “Y” pensei: “ufa!” A minha irmã completa: “Lavyny Rejane”. Buááááááá! É de chorar. De onde veio esse Rejane, meu Deus?

     Bem, pra terminar a história, outro dia eu estava assistindo o Telecine e acabei dormindo. Quando acordei, o filme havia terminado. Era um filme de faroeste e estavam passando os créditos. Para minha surpresa eu vejo: “Câmera Operator – David Starsky”. Fiquei três dias sem conseguir dormir de novo.

     Isso é um pouco de Valente. Minha Terra Natal. Tem muito mais. Mas depois eu conto pra vocês.

     Um beijo no coração e todos e sejam felizes. Sempre!

 

Henrique Araújo

Cracatua e Acarajeh

 

 

Escrito por Cracatua Araujo às 07h57
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08/04/2009


Nos Confins do Sertão - Parte 2

O CAPETA E SEU SANTO NOME

 

     No Nordeste, quando morre um bebê, dizemos que Deus levou um Anjinho pro Céu. Mas essas palavras não consolavam Antoniel. A caminhada de volta do Cemitério era a mais longa já vivida por aquele homem. A cidade de Barra, situada no Estado da Bahia, fica localizada no encontro do Rio Grande com o Rio São Francisco. O nome da cidade retratava com exatidão o que estava passando o pobre Antoniel. Uma verdadeira barra. Naquele domingo, 15 de agosto de 1976, ele havia acabado de enterrar seu único filho. Sua mulher, Cândida, teve complicações no parto e para que sua vida fosse salva, suas trompas foram extirpadas e ela convalescia da cirurgia em casa, ainda triste e chorosa pelos acontecimentos. Ela não poderia mais ter filhos. Duas notícias tristes no mesmo dia. Estava sendo demais pra ele. Seu irmão, Adílson, tentava confortá-lo:

 

_ Tunié, Deus sabe o que faiz. Si foi da vontade Dele, num tem que recramá.

_ Ara, Adírso. Ocê num deve di sabe a dô qui tô sintino. Meu coração parece qui vai isprudir. O sonho di toda a minha vida. Um fio hômi. E Ele mi tira? E num mi dá ôtra chance? Pru mode? Que diabo eu fiz pá Ele?

_ Hômi dêxe di brasféma. Deus ti castiga!

_ Castiga mais o quê? Mi matá? É um favô qui Ele mi faiz.

_ Eu vô inté saí di perto docê. Num quero que os castigo di Deus caia sobre eu tumém.

_ Intão si mande di perto di eu. Vô jogá peda no Rio. Já que devo di tê jogado na cruiz. No Rio vai sê fácir.

 

     Adilson deu meia volta e foi embora. Antoniel continuou andando até chegar à margem do Velho Chico. Olhou aquela imensidão de água e disse:

 

_ É Véio. Vô ti inchê um poco mais cum minhas lágrima. Tu qui mim deu tanto pêxe, vai sê meu lenço agora.

 

     Acabara de anoitecer e o São Francisco seguia seu curso calmo e tranqüilo. A Lua brilhava no Céu estrelado. O reflexo riscava as águas e deixava a noite clara. Quase como o dia. Sentado no chão molhado da margem do Rio, Antoniel chorava e pedia perdão por ter dito o que disse. Mas ainda assim perguntava por quê. Sempre foi um homem temente a Deus. Ia à igreja todos os domingos. Nunca fez mal a uma mosca. Não encontrava uma resposta. Até que algo o tirou dos seus absortos pensamentos.

 

_ Deus Todo-Poderoso, o qui é aquilo? _ Pensou Antoniel.

 

     Seguindo o curso do rio, uma folha de bananeira. Dentro dela, algo brilhava cada vez que encontrava o reflexo da lua. Antoniel caiu na água com roupa e tudo. E começou a nadar desesperadamente até a folha de bananeira. De repente começou a ouvir um choro de bebê.

 

_ Minha Nossa Sinhora! O qui é qui tô ouvino? Um neném?

 

     Entre braçadas e respiros ele foi chegando perto da folha. Antoniel pegou a folha e puxou para si. Assim que olhou para o que havia dentro, o reflexo da lua encontra o vidro na folha e o brilho vai direto nos seus olhos quase o cegando. Ele mal conseguia enxergar pra que lado ficava a margem. O som do choro do bebê estava mais forte e mais perto. Ele puxou a folha de bananeira e nadou com vontade. Antoniel alcança a margem e vai, aos poucos, recobrando a visão.

 

     Ao olhar para a folha de bananeira, Antoniel tem uma grata surpresa. Um bebê. Um recém-nascido. Envolto em uma manta verde-claro ele segurava um relógio na mão esquerda. Seu rosto estava molhado tanto pelas águas do rio quanto pelas lágrimas que desciam intermitentes pela face. Vez ou outra abria os olhos e mostrava-se assustado. Antoniel o aconchegou nos braços e tentou acalmá-lo. Mas o que aquela pobre criança precisava, aquele pescador humilde não tinha no momento. Leite. O bebê estava com fome. Antoniel, atordoado, pensou no que fazer.

 

_ Minha Nossa Sinhora! É o meu fio. O Véio Chico me trôsse ele di vorta. Só pode di sê isso. É milagre! Brigado meu Deus. Brigado Véio Chico. Tu mim deu o maió presente qui um hômi pode querê. Carma, meu fio. Vô ti leva pra tua mãe ti dá di cumê.

 

     Antoniel saiu a toda velocidade em direção à sua casa. As lágrimas de tristeza pela perda do filho agora eram de alegria e devoção. Já chegando a casa ele gritou pela mulher:

 

_ Cândia, vem aqui muié. Cabô a tristeza.

 

     Cândida, convalescendo da cirurgia que lhe tirou o direito de ter filhos, ainda chorando a morte do seu rebento, saiu assustada de casa. Parou na soleira da porta e, ao ver o marido com alguma coisa nos braços, perguntou:

 

_ Qui é isso, Tunié? Ontutava hômi? Adírso disse qui tu tava na bêra do rio e só brasfemano. Tá todo moiado. Tu caiu no Chico, hômi? O qui tu teim aí nos braço?

 

     Antoniel tava que era uma alegria só. Abriu um sorriso para a mulher e disse:

 

_ Muié, óia o qui o Véio Chico mim deu di presente! Tava boiano numa fôia de bananêra. Si eu num entro drento dágua pá pegá o bixim, uma hora dessa já tava perto de Xique-Xique.

 

     Colocou o bebê no colo da mulher com todo o cuidado do mundo. Cândida começou a chorar de emoção.

 

_ Mais o qui é isso, minha Nossa Sinhora! Di onde vêi essa coisa mais linda?

_ Muié, é nosso fio. Foi Deus qui devorveu. Ele vêi do rio. Incrusive eu já pensei num nome pra ele. Francisco. Vai si chamá Francisco. Qui nem o Véio Chico. In menáji a ele. O qui tu mim diz?

 

     Cândida estava extasiada com a criança no colo. De repente ela olhou pro marido e perguntou?

 

_ E êssi relójo? Di onde vêi isso?

_ Ara, Cândia. Tu num vai querditá. O minino tava sigurano. Eu bem qui tentei tirá dele, mais o danado é forte qui só. Num cunsigui tomá o relójo dele. Adispois nóis resorve isso. Muié, Amanhã, di manhazinha, nóis vai lá pra Xique-Xique e resista o minino. Nóis vamo criá esse minino e ele vai trazê muntcha aligria pá nóis.

 

     Entraram em casa e Cândida deu de mamar ao agora Francisco de Assis Sodré. Francisco de Assis em homenagem a São Francisco de Assis e também ao Rio São Francisco e Sodré, o sobrenome da sua nova família. Antoniel dos Santos Sodré e Cândida Maria Sodré. Os dois Ficaram “lambendo a cria” até amanhecer o dia. Bem que tentaram tirar o relógio da mão de Francisco mas não houve jeito. Praticamente sem dormir, puseram as melhores roupas e seguiram pra rodoviária levando Francisco pra registrar em Xique-Xique. A idéia era evitar o falatório que provavelmente aconteceria na cidade de Barra. Desceram do ônibus em Xique-Xique e foram até o Cartório da Praça Francolino dos Santos. Nesse momento, Antoniel percebeu que Francisco estava com o relógio no braço e sua mão esquerda continuava fechada. Ele tentou abrir a mão do moleque. Nada.

 

     Dentro do ônibus, todos procuravam uma corrente de ouro de uma senhora. Ela jurava que a corrente devia ter caído quando o ônibus passou por uma lombada na entrada da cidade.

 

_ Cândia, óia qui isquisito. Chiquinho tá cum relójo no braço e a mão dele continua fechada.

_ Ara hômi, dêxa o minino im paiz. Ele deve ter ficado anssim pur carsa da água fria do rio. Sabe lá quanto tempo ele perambulô pur aquelas água?

 

     Chegaram ao Cartório e como estava vazio foram registrar o bebê.

 

_ Bom dia. Como é que vai se chamar o menino? _ perguntou o tabelião.

_ Francisco. Francisco de Assis Sodré. Im menáji ao Santo. _ Respondeu Antoniel.

_ Boa escolha. O senhor é devoto de São Francisco de Assis?

_ Óia moço. Si num era, agora sô!

 

     Assinaram o Registro, pegaram a Certidão de Nascimento de Francisco e voltaram pra rodoviária. Lá pegaram outro ônibus que os deixou quase na porta de casa, em Barra. Chegando em casa, Cândida foi dar um banho no Francisco. Fazia muito calor e o menino suava que nem cuzcuz.

 

_ Tunié, corre aqui Tunié! _ Gritou Cândida, bastante assustada.

_ O qui foi muié? Qui disispêro é êsse? _ Respondeu Antoniel.

_ É o Chiquinho. Óia. Óia.

 

     Antoniel não conseguia acreditar no que estava vendo. E, mais que acreditar, não conseguia entender como estava acontecendo. Francisco estava tranqüilo, sonolento, no colo de Cândida. No seu braço esquerdo, um relógio. No pescoço, uma corrente de ouro. A mão esquerda? Bem fechada!

 

No Cartório, o Tabelião chamou todos pra uma reunião.

 

_ A minha aliança sumiu. Faz mais de vinte anos que não tiro do dedo pra nada. Eu quero que vocês me ajudem a encontrar. É de ouro maciço e minha mulher não vai acreditar que eu, simplesmente, a perdi.

Escrito por Cracatua Araujo às 12h50
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04/04/2009


Viva o Povo Nordestino!

 

     Faço uma homenagem a todos os Nordestinos, em especial aos que migraram de seus rincões e conseguiram, com decência e determinação, vencer em terras longínquas e com costumes tão diferentes. Viva o povo Nordestino!

 

SINA NORDESTINA

 

Dizem que o Nordestino é, antes de tudo, um forte. E somos mesmo. Guerreiros descalços e sem cantis ou bornais, que desbravam os Sertões em busca de, simplesmente, sobrevivência. O povo Nordestino, além de sofrer com os entraves políticos (apesar de ter, como representantes, alguns bons nomes) que o mantém há séculos longe das riquezas encontradas e/ou produzidas no próprio Nordeste, com a Eterna Seca que assola a Região sem dó nem piedade, é alvo de piadas preconceituosas e racistas que se perpetuam através das gerações de alguns “brasileiros” que se acham “acima” ou “abaixo” da chamada “Linha da Pobreza”. Sofre com as alcunhas, por muitas vezes, injustas que os irmãos pródigos do Sul e Sudeste insistem em nos apelidar. Somos todos “baianos” em São Paulo, “paraíbas” no Rio de Janeiro e “do Norte” em outras regiões do país.

Dizem que o Nordestino é, antes de tudo, um forte. E somos mesmo. Pois apesar de tantas adversidades, consideradas por muitos como destino, sorte ou predestinação, temos conseguido, ao longo dos anos e episódios da nossa História, conquistas memoráveis e indiscutíveis. Não estou aqui pra dizer ou tentar provar o contrário. Nem queremos ser melhor do que ninguém. Apenas não aceitamos a inferioridade. Somos iguais. Somos advogados, jornalistas, magistrados, médicos, engenheiros. Somos policiais, bombeiros, petroleiros, professores, estudantes. Somos mestres e aprendizes. Somos pastores evangélicos, padres católicos, monges budistas, sacerdotes de inúmeras religiões e não só Pais-de-Santo do Candomblé, umbandistas (religiões marginalizadas por uma boa parte da população, mas que tem muito valor) ou macumbeiros. Somos bandidos, presidiários, pecadores, corruptos, corruptores. Somos iguais. Iguais aos cariocas, mineiros, gaúchos, paranaenses, catarinenses e paulistas. Somos iguais. Iguais aos centro-oestinos e nortistas. Se Minas nos deu Juscelino Kubitschek, São Paulo nos presenteou com Mário Covas, o Rio Grande do Sul nos trouxe Getúlio Vargas (amado e odiado por muitos), nós demos para o país ilustres “cabeças-chatas” como Castro Alves, Ruy Barbosa, Teotônio Vilella, Ariano Suassuna, Roberto Freire e porque não dizer, Luis Ignácio Lula da Silva (também amado e odiado por muitos).

Dizem que o Nordestino é, antes de tudo, um forte. E somos mesmo. Muitas vezes precisamos abandonar a nossa Terra Natal em busca de uma vida melhor em outro canto do país ou do mundo. Não é raridade a necessidade de migrarmos deixando para trás nossas famílias, nossos cantinhos, nossas raízes e nossa História e são cada vez mais freqüentes as vezes que não conseguimos retornar, nos privando de lugares e situações que tanto nos agradaram em nossa infância e adolescência. Nos “diferenciam” pelo sotaque ou pela cor. Como se o Sulista não fosse tão “branquelo” quanto “crioulos” são os baianos, o gaúcho não falasse cantando (muito bonito, diga-se de passagem) quanto cantam os alagoanos e sergipanos. Porque “ê’ e não “é”? Porque “poirta” e não “porrta”? Porque “mandioca” e não “aipim ou macaxeira”? Porque “gaita e acordeon” e não “sanfona”? Porque “poirquê” e não “porrquê”? Por quê? Porque o “Cristo Redentor” e não “Padre Cícero”? Porque “Copacabana” e não “Itapoã”? Porque “Fla-Flu” e não “Ba-Vi”? Porque todo cearense precisa ser garçom ou comediante/humorista? Porque pernambucano tem de saber dançar frevo? Quem disse que todo baiano gosta de acarajé e de farinha? Alguém pode provar que todo potiguar sabe dançar forró?

Como disse o escritor Euclides da Cunha, o Nordestino é, antes de tudo, um forte. E somos mesmo. E, queiram ou não, continuaremos sendo. Nordestinos fortes. E me desculpem o pleonasmo.

Henrique Araújo

Cracatua

Escrito por Cracatua Araujo às 12h33
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03/04/2009


Um Poema para Milena!

Este poema eu compus alguns dias depois de ter conhecido a Milena.

Para alguns MILENA não passa de uma corruptela de Milene. Outros dizem que a origem é Inglesa, Sérvia ou veio mesmo do Latim..

Alguns estudiosos garantem que o significado de MILENA quer dizer Amorosa e  Carinhosa. Que é disciplinada, prática, leal, confiável, sólida e eficiente.

Pouco me importa isso tudo.

MILENA para mim significa VIDA.

A que traz a Vida de volta.

MILENA para mim sigfnifica AMOR.

A que ama e se deixa amar por completo e sem porquês.

MILENA para mim significa RENASCIMENTO.

Por que ao lado dela eu renasci e posso dizer hoje: Estou aqui.

MILENA para mim significa HENRIQUE.

Por que não existe Henrique sem Milena e se Henrique  pudesse ser outra pessoa, ele seria Milena. Doce, indispensável e plena.

 

Na Minha Ausência

 

Quando sentir a minha falta

E lembrar do meu abraço e do meu calor

Abra a janela e receba a Luz do Sol

E todo o seu Esplendor!

 

Quando você acordar

E o meu cheiro não estiver nos seus lençóis

Vá a um campo florido

E me encontre no aroma dos Girassóis!

 

Quando você estiver triste

E necessitar de mim pra alegrar o seu dia

Vá à praia, perceba na imensidão do Mar

O meu amor e a minha poesia!

 

Quando você quiser voar ou flutuar

E pra isso pecisar dos meus beijos

Beba o orvalho da manhã

E sacie, na minha boca, os seus desejos!

 

Um beijo no coração de todos e sejam felizes. Sempre!

Henrique Araújo

Cracatua

Escrito por Cracatua Araujo às 20h59
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Minha Luz!

     Duas das minhas maiores paixões e motivos permanentes pra sorrir e chorar, amar e odiar, orar e blasfemar, viver e morrer, são a mulher e a poesia. E quando as unimos algo de mágico acontece: O Universo se torna pequeno e treme, o Bem e o Mal se dão as mãos, as Religiões são desfeitas, os diamantes se dissolvem e o ser humano, insignificante e impotente, se cala e morre!

 

MINHA LUZ

Que bom que chegaste agora

Envolveste o meu ser

Alimentaste o meu corpo

E me fizeste viver.

Que bom que chegaste agora

Iluminaste meus pensamentos

Incitaste meus desejos

E dominaste meus sentimentos.

Quantas noites não dormi

Com medo de não sonhar contigo

Quantas noites não dormi

Com medo de acordar e não te ter comigo

 

Que bom que chegaste agora

E me fizeste despertar

E me trouxeste a calma

E me mostraste a Vida

E me acalmaste a alma

E me ensinaste a amar!

     Quando fiz esse Poema, não o fiz pensando em alguem em especial. As palavras foram surgindo e os versos foram saltando da minha boca como se não fosse por minha vontade própria. Depois eu percebi que o fiz, apenas, pelo doce prazer de criar!

Então, o dedico a todas as pessoas que, de alguma forma e por algum tempo, passaram ou estão passando pela minha vida e à cada dia estão me tornando uma pessoa melhor! E em especial, à minha verdadeira Luz. Que na verdade é a Luz de todos nós, que a esperamos todos os dias: O SOL! Resolvi homenagear algumas delas com umas imagens:

O Sol - A nossa Luz

Milena - A maior razão de eu ainda estar aqui. Uma Luz Forte e Intensa!

Caio - O sorriso de um filho é algo Luminoso

Elvis e Tenisson - Amigos de Luz que iluminam meu caminho

Izabel, minha Mãe - Deu-me à Luz. Não precisa explicar mais nada.

Mara, Clarinha e Carolzinha - A Irmã cheia de Luz e as sobrinhas que Clareiam qualquer escuridão!

 

Um beijo no coração de todos e sejamos felizes. Sempre!

Henrique Araújo

 

Escrito por Cracatua Araujo às 12h20
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01/04/2009


Nos Confins do Sertão,

O Nascimento do capeta

Era o dia 13 de Agosto de 1976. Uma ensolarada sexta-feira. Eu tinha sete anos de idade e minha mãe estava grávida do 7° filho. Nos confins do sertão baiano mais uma criança ia nascer. O sol queimava a vegetação e o calor era insuportável. Éramos seis filhos. Todos homens. E o desejo dos meus pais era que viesse uma menina para ajudar nas tarefas de casa. A expectativa era muito grande e minha mãe, uma mulher forte, parideira, como falamos no Nordeste, há dois dias sentia as contrações do parto. A bolsa estourou no dia anterior e até aquele momento nada da criança nascer. Enquanto os filhos mais velhos trabalhavam na pequena lavoura de milho e feijão, meu pai e meu tio ajudavam na tentativa de trazer a criança ao mundo. Eis que o meu pai, assustado, fala pro Tio Tunico:

_ Tunico, a criança tá atravessada. Vai chamar Purêza Partêra. Só ela pra consiguí salvar a muié, purquê o bebê não vai dar. Parece qui o cordão tá inrolado no percoço. Só ela e Deus pra dá um jeito nessa disgracêra.

O meu pai suava que nem cuzcuz. As mãos tremiam de nervoso e cansaço. Lágrimas desciam pelo seu rosto sofrido e queimado pelo sol escaldante. Tio Tunico começou a chorar de desespero e ficou paralisado olhando aquela triste cena.

_ Vai hômi! Vai ficá parado aí? Anda!. Pega o Ventania e sorta as ispóra. Eu tenho qui ficá aqui pá dá fôça pra Zumira sinão ela num vai guentá.

Tio Tunico dá um assobio e Ventania chega todo arisco. Ventania era o cavalo mais veloz das redondezas. Já tinha ganhado várias corridas e era desejado pelos fazendeiros da região. Montado em pelo, Tio Tunico soltou as esporas na barriga do animal que saiu a toda velocidade. Tio Tunico pegou um atalho pelo meio da Caatinga e Ventania relinchava a cada esporada e a cada chicotada. Suas ancas sangravam e ele voava, cortando o mato fechado, pulando cercas e tocos encontrados pelo caminho. Tio Tunico se segurava como podia no lombo daquela locomotiva de quatro patas.

No rancho, meu pai segurava a mão de minha mãe, fazia um carinho na sua testa enxugando, com um velho pano de prato, o suor que escorria. Minha mãe estava muito cansada e parecia não ter mais forças pra cumprir aquela tarefa. Meu pai rezava baixinho pedindo a Deus que salvasse a sua companheira. Que não permitisse que o pior acontecesse:

_ Sinhô num dêxa ela morrê. Fio, nóis arruma outro. Mas muié boa qui nem Zumira eu num incronto por essas banda. Mim dê essa graça e serei o hômi mais gradicido do mundo.

Ventania suava em bicas e não parava por nada. Já chegando ao vilarejo onde Purêza Parteira morava já se ouvia os gritos de Tio Tunico:

_ Purêza! Purêza! Ô Purêza!

Eis que, de uma casinha simples de pau-a-pique, sai uma senhora baixinha, magérrima, um vestido de chita cobria aquilo que era só pele e osso. Um lenço na cabeça escondia os cabelos brancos. Purêza Parteira tinha pouco mais de 40 anos mas parecia ter 70. O sofrimento da mulher Nordestina estava estampado naquele rosto. Com um cigarro feito de fumo de rôlo no canto da boca ela põe as mãos nos quadris e fala, com sua voz rouca e ameaçadora:

_ Qui sangria disatada é essa Tunico? Zumira tá parino?

Ventania risca nos pés de Dona Purêza e Tio Tunico responde:

_ Vamo cumigo, muié. O neném tá atravessado e, pelo jeito, Zumira vai morrê. Só tu e Deus pra sarvar minha irmã.

Dona Purêza, com toda a calma do mundo, entrou em casa, pegou uma sacola de palha, colocou uns panos velhos dentro e subiu na garupa de Ventania.

_ Vamo, Tunico! Faz esse cavalo corrê qui nem quando ele ganhô a currida pro cavalo do Coroné Binidito Laranjêra.

_Se sigura intão qui nóis vamo cortá essa catinga em cinco minuto. _ Respondeu o meu Tio.

E lá foram eles. Tio Tunico agarrado no pescoço de Ventania e Dona Purêza atracada no Tio Tunico.

Em casa, meu pai, chorava baixinho e escondido pra minha mãe não perceber que o caso era grave. Nisso, chega Tio Tunico e Ventania trazendo Purêza Parteira na garupa. _ Chegamo, Rémundo! _ gritou Tio Tunico.

_ Deus sêja lovádo! _ disse o meu pai, ajoelhando e erguendo as mãos pros Céus.

Dona Purêza desceu do cavalo que bufava por causa da correria, pegou a sacola de palha e entrou em casa já dando ordem:

_ Rémundo, traz uma bacia com água e depois sai todo mundo daqui. Hômi nessas hora só atrapaia. _ Virou-se para minha mãe e disse:

_ O que é isso, muié? Tá dano pá ruim adispois de véia é? Vamu butá esse bacurinho pra fora e é já.

Minha mãe ergueu com muita dificuldade as pálpebras, olhou Dona Purêza e um sorriso choroso apareceu na sua face. Purêza Parteira era quase uma Santa naquele  lugar. Nunca tinha deixado uma mulher nem um bebê morrerem no parto. E já tinha feito mais de mil partos. Segurou a mão da minha mãe e disse:

_ Vê si toma vergonha na cara e bota esse muleque pra fora. O lugá dele é aqui. Força minha fia.

Fora do quarto, meu pai e meu tio andavam de um lado pro outro numa tensão desmedida. De vez em quando a parteira saía do quarto e dizia:

_ Vai dá tudo certo, cum fé in Deus! _ depois fechava a porta e voltava pro trabalho.

Lá dentro a preocupação com o bebê era muito grande e minha mãe, buscando forças sabe-se lá de onde, força um pouco mais e... Um choro de criança invade o quarto, a casa e parecia ter sido ouvido em toda a região. Meu pai se abraça ao meu tio e choram, agradecendo a Deus e a Nossa Senhora pelo milagre.

Nesse momento, Dona Purêza sai do quarto e chama o meu pai num canto:

_ Óia hômi. Tua muié tá bem. Ta pronta pá ôtra. Ela teve mais um minino. Mas eu tenho qui ti falá do teu fio. Num se assuste. Ele nasceu cum a mão fechada. Num teve manêra di abrí. O minino tem uma fôça du cão nas mão. Deve di sê argum pobrema de tanto que isperô pra nascê. Meu pai, enxugando as lágrimas, segura as mãos de Dona Purêza e diz:

_ Vóismicê sarvô minha muié e meu fio. Vô gostá dele de carqué jeito. Deus e Nossa Sinhora le pague. _ Virou-se para Tio Tunico e disse: _ Tunico, leva Purêza pra casa. Vai num pé e vorta no outro pra mim ajudá com tua irmã.

Tio Tunico nem pestanejou. Montou de novo Ventania, pôs Dona Purêza na garupa e cravou as esporas na barriga do cavalo. E lá se foram cortando a caatinga. Quando estavam chegando ao vilarejo Dona Purêza gritou:

_ Pára Tunico! Já sei de um mode pra abrí a mão do neném.

Tio Tunico puxou as crinas de Ventania que parou imediatamente.

_ Tem certeza muié?

_ Ara hômi. Vamo vortá logo qui eu sei o qui tô dizeno.

Voltaram pra casa. Quando eles foram chegando o meu pai achou estranho Dona Purêza estar junto.

_ Óxente, muié! Tu vortô pru mode?

Dona Purêza desceu do Ventania, chamou o meu pai, o tio Tunico e falou:

_ Vem cumigo nu quarto qui eu discobrí pru mode esse minino nasceu cum a mão fechada daquele jeito. Vem me ajudá abrí.

Os três entraram no quarto onde minha mãe dava de mamar ao rebento.

_ O qui hôve? _ Perguntou assustada.

_ Num se prórcupe, Zumira. _ respondeu Dona Purêza. _ Vamo abrí a mão du minino e é agora.

Dona Purêza pegou a criança no colo que chorava por ter sido tirada do peito, e ordenou:

_ Rémundo, tu puxa o polegá, Tunico o mindim. Eu enfio os dedo drento dos otros dedo dele e abro a mão.

Dito e feito. Os três fizeram o programado e o neném abriu a mão, pra surpresa geral. Menos pra Dona Purêza que, pelo jeito, já sabia.

_ Ah muleque safado! Tu vai tê pobrema cum essa peste, Rémundo. O Disinfiliz robô meu brinco na hora do parto. Esse tem parte cum coisa ruim. E agora Tunico, me leva pra casa que eu tô cuma dô nus quarto que, afimaria.

Meu pai estava perplexo diante da cena. Minha mãe olhava pro moleque como que perguntando por que e como ele fez isso. Tio Tunico fez o sinal da Cruz e chamou Dona Purêza pra ir embora. Quando ele voltou, meu pai o chamou num canto e disse:

_ Tunico, tu me cunhece. Eu num sô hômi de perdoá ladrão. Mermo qui sêja meu fio. Num vô criá esse danado di jeito ninhum.

Tunico, começou a chorar e pediu clemência.

_ Rémundo, é só um bebê. Tu vai fazê o quê hômi? Vai matá? Vai dá prus porco? Tenha juízo, cunhado.

_ Num tem perdão. Tu vai pegá uma fôia de bananêra, leva esse peste pro rio e sorta lá. Se vivê ou morrê vai sê da vontade de Deus. E num discute cumigo. Tá dicidido e pronto.

Tio Tunico não tinha alternativa. Meu pai era um homem muito honesto e respeitado nas redondezas. E não voltava de uma decisão nem por um decreto. Com lágrimas nos olhos ele enrolou o menino numa folha de bananeira, montou Ventania e seguiu em direção ao rio. “É só um bebê”, pensava ele. Mas não era maluco de contrariar o meu pai.

Em casa meu pai tentava consolar minha mãe. Ela não se conformava.

_ É só um bebê, hômi disnaturado.

_ Ladrão sem vergonha num tem idade, muié. Se conforma. Nóis faiz ôtro.

Tio Tunico e o bebê chegaram ao rio. Ele desceu do cavalo, colocou o neném no rio e disse:

_ Qui Deus ti protêja, ladrãozinho sem vergonha.

A folha de bananeira descia o rio e meu tio chorava de pena do moleque.

Montou novamente Ventania e foi-se embora. Devagarzinho. Passo a passo. Parecia arrependido. Chegaram em casa e meu pai perguntou:

_ Fez o qui tinha qui fazê?

_Fiz _ Tio Tunico respondeu cabisbaixo e triste. _ Mas num mi conformo.

Meu pai, homem de coração duro feito rocha disse:

_ Hômi dêxe de sê besta. Aquilo num ia prestá.

Nesse momento, meu tio se assustou, bateu a mão no braço esquerdo e gritou:

_ Fio do Satanás! Ele robô meu relójo.

Escrito por Cracatua Araujo às 10h13
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30/03/2009


Os Pilares

OS TRÊS PILARES DA HUMANIDADE

O Amor.

Quem consegue entender o amor?

Como buscar, entender, viver

Esse sentimento tão misterioso?

Não sabemos como ele vai aparecer nem quando.

E quando surge nos transforma.

Não há regras ou formas.

Estratégias ou planos.

Muitas vezes indolor, noutras doloroso.

E como se esquivar, fugir, esquecer

Se ele causa em nossas vidas tanta dor?

E para quê se esquivar, fugir, esquecer

Se ele causa em nossas vidas tanto prazer?

O Amor.

Como explicar o amor

E perceber que ele nos domina com vigor?

 

A Morte.

Quem consegue entender a morte?

Como ignorar, aceitar, se conformar

Com esse momento tão avassalador?

Não sabemos como ela vai aparecer nem quando.

E quando surge, nos incomoda e entristece.

Não respeita pedidos ou preces.

Não se importa se estamos sós ou em bandos.

Traz consigo o choro e o torpor.

E como se esquivar, fugir, esquecer

Se ela causa em nossas vidas tantas mudanças?

E para quê se esquivar, fugir, esquecer

Se ela sempre nos encontra, velhos ou crianças?

A Morte.

Como explicar a morte

E perceber que não somos tão fortes?

 

Deus.

Quem consegue entender Deus?

Como não procurar, respeitar, temer

Esse Ser tão poderoso?

Não sabemos como Ele é nem onde está

Há quem diga que Ele está em todos os lugares

Com Sua força, controla os outros pilares

Faz-se presente onde quer que o homem vá

Enche-nos de Paz, Luz e de um sentimento espirituoso

E como se esquivar, fugir, esquecer

Se, em algum momento, vamos, por Ele, procurar?

E para quê se esquivar, fugir, esquecer

Se a todo o tempo Ele está a nos controlar.

Deus.

Como explicar Deus

E perceber que somos todos "Deus"?

 

Um beijo no coração de todos  e sejam felizes. Sempre!

Luiz Henrique Araújo dos Santos

Cracatua e Acarajeh

Escrito por Cracatua Araujo às 02h37
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27/03/2009


A PROFECIA!

A PROFECIA

Na inauguração do meu blog e para comemorar o meu aniversário de 40 anos eu queria compor algo novo, inédito e, logicamente, especial. Foi aí que eu resolvi publicar essa parte da minha História.

Segundo matéria do Jornalista Andy Travel, do tablóide sensacionalista inglês The Moon and its Craters, o Sr. Henrique Araújo teve uma experiência Parapsicoapocalíptica Abdutora no último sábado, 21 de Março de 2009. A Imprensa Inglesa acredita realmente na abdução, já representantes de Entidades que estudam UFOs em todo o mundo declararam que o Sr. Cracatua está querendo se autopromover com o episódio, segundo eles, inventado por “esse senhor de idoneidade duvidosa e de caráter suspeito”. Ele ficou de dar uma entrevista coletiva explicando o momento mais espetacular da sua Vida.Cracatua começa a falar:“Boa noite a todos e desculpem-me tê-los feito esperar tanto. Agradeço a todos pela presença. Senhoras e Senhores, o que circulou no Jornal The Moon and its Craters é a mais pura verdade.”

Nesse momento acontece uma comoção geral. Evangélicos desmaiam segurando suas Bíblias recheadas de dólares e “Escrituras Sagradas" de Mansões e de Imóveis de grande porte do mundo inteiro, o pessoal da CNBB reclama da falta de crianças e adolescentes no evento, espíritas invocam entidades, ateus declaram o Fim dos Tempos e os parlamentares de Brasília querem incluir algumas emendas para garantir algum para si. O burburinho é geral. As pessoas falam em voz alta e ninguém se entende. É uma verdadeira Babilônia dos tempos modernos. Cracatua permanece calado, imóvel, aguardando os ânimos se acalmarem para continuar a falar.

Os presentes se acalmam e o Cracatua continua: “Na última sexta-feira, dia 20, eu estava na Polinésia Francesa com algumas amigas e comecei a sofrer alucinações e arrepios. Devo deixar claro que não usei drogas de nenhuma espécie ou qualquer medicamento alucinógeno. Comecei a ver grandes explosões estelares. Planetas, Cometas e Estrelas viajando no Universo a uma velocidade inimaginável. Olhei para as meninas que estavam comigo e elas dormiam profundamente. Nesse momento, minhas vistas ficaram turvas e não consegui ver, ouvir e nem sentir mais nada. Acredito ter apagado por completo.”
Mais uma interrupção. O pessoal do BOPE queria levar o Cracatua preso por apologia às drogas, a Polícia Federal estudava uma maneira de prendê-lo por tráfico internacional de mulheres, hippies remanescentes de Woodstock gritavam 'Cracatua, Cracatua', enquanto uma fumaça densa e fétida impedia a todos de respirar com facilidade. A fumaça era tão forte que o Corpo de Bombeiros foi acionado e a cidade teve o trânsito transformado num verdadeiro caos. Mais uma vez o silêncio reina e
Cracatua recomeça sua narrativa: “Então, fui acordado, hoje, pelo som de Trombetas Celestiais que invadiram o silêncio do meu quarto e me fizeram pular da cama. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo uma luz intensa cegou-me, um forte barulho deixou-me completamente surdo e no vazio causado pela minha surdez temporária comecei a ouvir e, sem querer, proferi essas palavras:

Haverá uma transformação mais que especial. Em silêncio, saberás o momento importante e de valor inigualável. Não perderás essa oportunidade, leve e sutil como uma felina. Respeitarás o acontecimento enquanto inúmeros sóis se alinham numa espiral. Inibirás qualquer interferência no Cosmos perplexo e impenetrável. Qualquer mudança, mentira ou verdade atingirá o ápice numa forma feminina. Uma força descomunal e sem comparação Existirá e reinará por toda a Eternidade.

Ao escrever, ler e reler o que tinha dito vi tratar-se de uma profecia. A princípio não entendia o que queria dizer, mas, depois, fui juntando as peças. E que peças. Comecei a interpretar aquelas palavras, frases e me vi pensando na minha vida. Assisti ao filme da minha vida que passava na minha mente de forma clara e precisa, desvendando todo o mistério produzido por tão incrível sensação. A mensagem, profética, poética e de natureza Angelical, preparava-me para uma experiência sem precedentes na História psicossocial do Ser Humano. Uma profunda mudança idealizada e provocada por Seres de Outras Dimensões, os nossos Espíritos Protetores, mais conhecidos como Anjos da Guarda. Essa mudança prevê renovações no Círculo de Amizades, que vão desde a eliminação total e plena de antigos amigos do meu convívio, seja por mudança de hábito, credo, profissional ou por simples e permitida desencarnação, até a inclusão de novos amigos e relacionamentos seja de maneira natural, virtual ou Espírita, e a manutenção com ou sem alteração de alguns amigos de hoje. O filme da minha vida continua passando e vejo imagens de pessoas, até então, queridas, desfazendo-se em milhares de pedaços ou transformando-os em vilões épicos e bandidos de filmes policiais. Ao mesmo tempo observo surgirem fotografias e pinturas de rostos até então desconhecidos se transformando em figuras próximas e Heróis da minha infância e até em ídolos da Música, Literatura, Esportes, entre outros. A transformação é mesmo radical. Teclados e telas se misturam a telefones e imagens em hologramas de pessoas, momentos, vivências do passado, presente e futuro. Um rosto de mulher se destaca todo o tempo neste filme. No início, a Eva desconhecida e inatingível no Paraíso vai se tornando na mulher comum, possível, guerreira e próxima. Ela divide-se em enfermeira, mãe, amante, amiga e na maior paixão platônica transformada em realidade já produzida pela mente humana. As letras e palavras da Profecia começam a tomar forma e se transformam em versos que se dividem e se transformam em dois poemas distintos e paradoxalmente unificados.

De um lado a profecia propriamente dita forma o nome Henrique com as primeiras letras de cada verso. O homem que, copiando a Fênix, retorna de um Mar de Cinzas para se tornar o mais louco  poeta cibernético dos últimos tempos.

Do outro as frases se juntam e definem a mulher capaz de retirar-me do mais profundo poço sem fundo e levar-me à superfície para entender e viver essa magnífica transformação. Além disso, nos revelam em suas iniciais o seu precioso nome: Milena. E eis que, ainda estupefato, separei os dois Poemas e aqui os reproduzo para o deleite de todos:

Poema 1 - A Profecia

Haverá uma transformação.

Em silêncio, saberás o momento.

Não perderás essa oportunidade.

Respeitarás o acontecimento.

Inibirás qualquer interferência.

Qualquer mudança, mentira ou verdade.

Uma força descomunal e sem comparação

Existirá e reinará por toda a Eternidade.

Poema 2 - A Salvação!

Mais que especial

Importante e de valor inigualável

Leve e sutil como uma felina

Enquanto inúmeros sóis se alinham numa espiral

No Cosmos perplexo e impenetrável

Atingirá o ápice numa forma feminina.

Henrique Araújo, conhecido na internet pelas alcunhas de Cracattua e Acarajeh, faz-se conhecer e, a partir deste momento, entra para o seleto grupo de bilhões de blogueiros de todo o mundo. Lembremos que, ainda que de maneira desnecessária, esses poemas, bem como todos os causos, contos e poesias aqui retratados, estão registrados em Cartório, para que os Direitos do  Autor sejam preservados.

 

Um beijo no coração de todos e sejam felizes. Sempre!

Luiz Henrique Araújo dos Santos

Acarajeh e Cracatua

Escrito por Cracatua Araujo às 20h47
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